Por que temer a variante brasileira do novo coronavírus?

Se não bastasse o desafio interno para controlar o avanço da Covid-19 no país, o Brasil passou a ser um dos focos da atenção mundial devido à descoberta de uma variante do vírus causador da doença na região Amazônica (cepa P1), provável motivo da chamada segunda onda de casos nos arredores de Manaus. Com receio de que essa variante se espalhe, muitos países fecharam as portas para pessoas que partem de cidades brasileiras, causando vários transtornos. Mas por que essa versão “brasileira” do vírus é tão temida? Há razão para tanto receio?

“O vírus SARS-CoV-2, causador da Covid-19, encontrado em Manaus, é o mesmo em todo o mundo. O que acontece é que, como todo vírus, ele vai sofrendo mutações à medida em que se espalha, dando origem a novas cepas, que podem ou não mudar algumas de suas características”, explica a assessora em Genômica e Genética do Laboratório Lustosa, Fernanda Soardi, que é PhD em genética e biologia molecular.

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Segundo a especialista, o problema é quando essa mudança “melhora” o desempenho do vírus, como a capacidade de invasão ou a velocidade de transmissão. E foi exatamente essa última característica que cientistas acreditam que foi aperfeiçoada na cepa P1.

“No Brasil, a Covid-19 começou a partir de duas cepas vindas da Europa que devido ao surgimento de mutações deram origem a diferentes cepas e, mais recentemente, a cepa P1. A cepa P1 possui diversas mutações, algumas semelhantes às encontradas em amostras de pacientes da África do Sul e do Reino Unido. Três dessas mutações ocorreram na região de ligação ao receptor das células humanas, região que faz o vírus se ligar às nossas células e transmitir o seu material genético. Os dados iniciais sugerem que a modificação na capacidade de ligação ao receptor melhorou a eficiência do vírus, o que faz com que a cepa P1 se espalhe com maior rapidez do que as cepas originais”, relata.

Fernanda Soardi acredita que essa nova variante pode estar relacionada a permanência dos números de casos no Brasil em um patamar alto. E uma nova onda de contaminação, muito mais rápida, é justamente o que outros países que não possuem ainda essa variante do SARS-CoV-2 não querem que aconteça. “A cepa P1 pode chegar a qualquer país, estado ou cidade, caso medidas de contenção de trânsito da população e cuidados necessários para evitar a transmissão (como o uso de máscara, higiene das mãos e o distanciamento) não sejam tomadas”, destaca.

Segundo informações da assessoria de imprensa, o Laboratório Lustosa registrou uma alta significativa na positividade nos testes de Covid-19 no período de 15 a 20 de fevereiro: de 17,9% para 25,1%. O índice ficou acima da média de janeiro.

Vacinação

Mas a vacinação não poderia barrar essa proliferação? Para Fernanda, não é tão simples, pois as doses são fabricadas baseadas nas cepas já conhecidas e analisadas, e não nas novas mutações. “Até o momento, as vacinas disponíveis podem imunizar para as diferentes cepas já identificadas. Contudo, há indícios de alteração da eficiência de algumas vacinas em resposta a determinadas mutações. Ainda estamos aprendendo como ocorrem as respostas humoral e celular ao vírus. Portanto, não é possível inferir, no momento, se haverá necessidade ou não de novas etapas de vacinação. Novas informações serão fornecidas conforme um maior número de pessoas seja vacinado”, disse.

Apesar de muitos países já terem iniciado a imunização pelas pessoas mais idosas, a ONU estima que 130 nações ainda não possuem vacinas e apenas dez países concentram 75% das doses aplicadas no mundo. O ritmo da produção mundial também está muito aquém da demanda, o que deve fazer com que as medidas de contenção e as incertezas sobre a Covid-19 ainda se mantenham por um bom tempo. “A máscara, bem como outras medidas de prevenção, deve ser mantida até serem alcançados números significativos de vacinados ou conforme alteração das medidas de enfrentamento ao vírus SARS-COV-2 pelos órgãos responsáveis”, ressalta a especialista.

Teste PCR

Em relação aos exames realizados para Covid-19, Fernanda Soardi explica que as mutações recentes encontradas no gene da proteína S (spike) do vírus não afetam os testes moleculares que utilizam outros marcadores genéticos do vírus. Dessa forma, a sensibilidade do teste RT-PCR que analisa regiões do nucleocapsídeo para o diagnóstico do SARS-CoV-2 não é afetada, segundo estudos publicados até o momento.

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