
A solidão na velhice não deve ser encarada como uma consequência natural do envelhecimento. Além de afetar o bem-estar emocional, o isolamento prolongado está associado a riscos para a saúde física e cognitiva, incluindo depressão, demências e doenças cardiovasculares. O pesquisador brasileiro David Amorim, mestre em Antropologia Médica por Harvard, chama a atenção para a importância dos vínculos sociais como parte do cuidado com a população idosa.
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“A conexão com outras pessoas é uma necessidade tão básica quanto a água e a comida. Nós, humanos, necessitamos de estar em sociedade para sobreviver bem”, pontua Amorim. Para ele, a percepção de que a solidão é uma etapa natural da vida precisa mudar, especialmente diante das transformações sociais que podem reduzir as oportunidades de convivência após a aposentadoria. “Aos 65 anos, uma pessoa ainda pode ter 20 ou mais anos de vida pela frente. Estes muitos anos podem ser repletos de significado e de felicidade. Basta a sociedade lembrar de incluí-las”, complementa.
Os efeitos do isolamento prolongado vão além da saúde mental. Segundo o pesquisador, a solidão pode aumentar o risco de declínio cognitivo, demências, doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais (AVCs), depressão e morte prematura, além de enfraquecer a função imunológica. Pessoas idosas isoladas também tendem a utilizar mais os serviços de pronto-socorro, permanecer mais tempo hospitalizadas e apresentar mais readmissões.
Amorim destaca, porém, que estar sozinho não é necessariamente o mesmo que sentir solidão. “Uma pessoa pode ter dezenas de amigos, mas sentir-se isolada, incompreendida. É aí que habita o perigo”, diz. Para ele, um dos principais fatores para a qualidade de vida ao longo do envelhecimento é contar com uma rede de apoio real, acessível e suficiente, capaz de promover pertencimento e acolher as necessidades de cada pessoa.
Entre os fatores que contribuem para o isolamento estão a aposentadoria, as dificuldades de mobilidade, a falta de transporte público e as mudanças na estrutura familiar. O pesquisador também chama a atenção para o impacto do etarismo e de condições como a perda auditiva. “Quando se estereotipa a pessoa idosa como ‘sem energia’, ‘devagar’ e ‘esquecida’, abre-se caminho para que ela realmente se torne todas estas coisas, porque o que o corpo não usa, ele despeja”, explica.
A identificação da solidão exige atenção às mudanças de comportamento, segundo Amorim. O afastamento de atividades habituais, a diminuição do contato com amigos ou alterações na rotina podem indicar que algo não vai bem. No entanto, as decisões devem ser tomadas em conjunto com a pessoa idosa, preservando sua autonomia. “Mas é importante avaliar a situação e tomar decisões junto à pessoa idosa, e não em nome dela”, ressalta.
Como estratégia para ampliar a convivência, o pesquisador defende a criação e o fortalecimento dos chamados “terceiros espaços”: locais frequentados regularmente além de casa e do trabalho, como bibliotecas, academias, museus, parques e centros comunitários. “O mais importante é que sejam locais bem frequentados, com várias oportunidades de atividades e de criação de laços duradouros”, afirma.
Para Amorim, enfrentar a solidão também exige combater o estigma em torno da saúde mental e reconhecer a importância do cuidado. “Isto não significa que a sociedade deve virar as costas para os médicos na sua jornada de cuidar da saúde mental, mas sim abraçar, com todo o calor e suporte, os profissionais de saúde que dedicaram a vida a ela”, conclui.








