Estresse pós-traumático: identificar os gatilhos é fundamental no tratamento

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(Foto: Ilustração/Freepik)

Reviver algum trauma costuma ser um processo doloroso e que pode trazer à tona muita solidão e sofrimento. Quando sintomas como isolamento, comportamentos de evitar aquela lembrança, pensamentos intrusivos relacionados ao trauma e hiperexcitabilidade surgem, é fundamental que o paciente busque ajuda, pois ele pode estar diante de um quadro de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Em alguns casos, gatilhos específicos podem aparecer, e aí são sinais valiosos de que é preciso recorrer à ajuda profissional.

Segundo a neuropsicóloga e mestre em psicologia Jaddh Yasmin Malta Cardoso, o medo e a ansiedade excessivos compõem o quadro de estresse pós-traumático.

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“Sabemos que é a TEPT quando há ao menos um evento traumático vivido pelo paciente antes da apresentação dos sintomas clássicos desses transtornos, e que por meio dos pensamentos, emoções e sensações corporais comparecem no presente, perturbando o estado do paciente”, explicou.

Marcelo Bini sabe bem como é ter que lidar com o estresse pós-traumático. Médico combatente veterano do Exército dos Estados Unidos, ex-policial do Texas e, atualmente, Investigador Federal dos EUA, ele já participou de várias guerras e presenciou situações extremas.

“Eu já conhecia esse diagnóstico do estresse pós-traumático, pois lidava com alguns pacientes assim, mas não sofria até então. Quando fiz minha transição do Exército para a Polícia, comecei a perceber que eu tinha algumas ocorrências que não eram normais e me abalavam bastante. Eu me sentia muito mal, não conseguia dormir, pensava sempre na mesma ocorrência, o que eu poderia ter feito de diferente para evitar uma morte e por que havia tomado tal decisão. Isso foi se tornando muito corriqueiro e eu me sentia culpado. Foi um processo de meses”, relatou Marcelo.

Para ele, o medo de ser julgado é um dos principais bloqueios para quem sofre com estresse pós-traumático. “Quando você percebe, você já está entregue, você evitar falar com seus colegas, com a família, e vai remoendo aquilo, é uma sensação muito ruim. Mas eu não pensava em buscar ajuda”, revelou.

Identificando os gatilhos

Alguns sinais importantes que podem indicar o estresse pós-traumático são os pensamentos recorrentes que remetem à lembrança do trauma, flashbacks, medo e ansiedade excessivos, isolamento social, taquicardia, ataque de pânico e distúrbios do sono.

No caso do Marcelo, um gatilho importante surgiu na festa de aniversário do seu filho. “Vi várias crianças juntas, da mesma idade daquela criança que foi envolvida na ocorrência que eu participei e que estava me fazendo mal. E nesse gatilho eu desmoronei. Entrei em processos de ataque de pânico um atrás do outro, tremores, mas eu não lembro disso. Isso é relatado pela minha esposa e por um amigo que estava nos Estados Unidos na época. Minha esposa diz que eu fiquei uns dias como se fosse um vegetal, não dormia, ficava olhando pro teto do quarto de olho aberto. Até que fui internado e comecei a receber ajuda de psiquiatras, psicólogos, uso de medicação e terapia”, relatou Marcelo.

Muitas vezes, quando o paciente busca ajuda profissional, já está convivendo com os sintomas há bastante tempo, isso porque as apresentações destes sintomas são intermitentes: ora surgem, ora não.

“Sem acompanhamento profissional, não há melhora nem qualidade de vida. O paciente estará convivendo com isso até se tratar. Porém, lidar com isso sozinho é bastante doloroso e implica perdas significativas de qualidade de vida e de relações interpessoais. É tão difícil quanto desnecessário. Sem tratamento, o paciente pode viver a vida inteira sofrendo”, explicou Jaddh.

Tratamento para o estresse pós-traumático

Em quadros de estresse pós-traumático são realizados trabalhos em conjunto, muitas vezes com psicoterapias e tratamento medicamentoso.

“Há casos em que a terapia é suficiente, e o uso da medicação não se faz necessário. Mas, quando sim, operamos em conjunto com os colegas da psiquiatria. Inclusive a Terapia EMDR (técnica norte-americana que desbloqueia memórias dolorosas através de estimulação bilateral do cérebro) é indicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das duas melhores técnicas para tratar o TEPT”, evidenciou a psicóloga.

Para Marcelo, o tratamento é algo a longo prazo e requer paciência. “É como se você quebrasse o braço e ficasse com uma sequela, uma dor ali, depois de muitos anos. É um processo muito doloroso, e no meu caso faço uso de medicação e terapia. Mas posso dizer com confiança que está sob controle. Como qualquer coisa que acontece fisicamente com o corpo, a saúde mental também tem que receber essa ajuda”, finalizou.

*Informações Assessoria de Imprensa