
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que reforça a obrigatoriedade da gestão de riscos ocupacionais, reacende um debate que vai além da conformidade legal: o lugar da saúde emocional dentro das empresas. Embora o texto avance ao reconhecer fatores psicossociais como parte do ambiente de trabalho, a aplicação prática ainda encontra resistência, sobretudo quando esbarra na cultura organizacional.
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Para Núria Santos, especialista em inteligência emocional e comportamento organizacional, o principal entrave não está na norma em si, mas na forma como as empresas interpretam sua implementação. “Existe uma tendência de tratar a NR-1 como um checklist jurídico, quando, na verdade, ela propõe uma mudança estrutural na forma como o trabalho é percebido e gerido”, analisa.
Segundo a especialista, o reconhecimento dos riscos psicossociais, como estresse crônico, sobrecarga e ambientes tóxicos, exige uma maturidade emocional que muitas lideranças ainda não desenvolveram. “Não basta mapear riscos. É preciso compreender como comportamentos, relações e decisões impactam diretamente o bem-estar coletivo”, afirma.
Nesse contexto, a inteligência emocional surge como um eixo estratégico. Empresas que investem no desenvolvimento emocional de suas lideranças tendem a antecipar conflitos, reduzir afastamentos e criar ambientes mais sustentáveis. Ainda assim, Núria observa que o movimento no Brasil é, em grande parte, reativo. “Muitas organizações só começam a agir quando o problema já se tornou jurídico ou reputacional”, pontua.
Outro ponto de atenção está na superficialidade de algumas iniciativas. Programas pontuais de bem-estar, segundo ela, não são suficientes para atender às exigências da NR-1. “A norma pede consistência. Isso significa integrar a saúde emocional à cultura, aos processos e à tomada de decisão, não apenas oferecer ações isoladas”, explica.
A discussão, portanto, não é apenas técnica, mas também simbólica. Ao incluir fatores psicossociais no radar regulatório, a NR-1 pressiona empresas a revisarem suas práticas sob uma nova lente: a do cuidado como responsabilidade corporativa.
Para Núria Santos, o cenário aponta para uma transformação inevitável. “A legislação está apenas formalizando algo que já é evidente: não existe performance sustentável sem saúde emocional. A questão agora é quem vai entender isso como vantagem competitiva, e quem vai continuar tratando como obrigação.”








