Silêncio que adoece: o risco de esconder problemas de saúde mental no trabalho

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(Foto: prostoleeh/Freepik)

Nos últimos anos, a saúde mental deixou de ser um tabu absoluto nas empresas, mas isso não significa que todos se sintam à vontade para falar sobre o assunto, especialmente com o chefe ou colegas de trabalho. O medo de represálias, de julgamentos ou até mesmo de perder oportunidades de crescimento ainda é uma barreira real para muitos profissionais que enfrentam sofrimento psíquico.

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Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), transtornos como ansiedade, depressão e burnout estão entre as principais causas de afastamento do trabalho no mundo. Os afastamentos por esses motivos subiram 67% em 2024 em relação ao ano anterior, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Ainda assim, muitas pessoas preferem se calar.

“Se uma pessoa está começando a ter problemas psicológicos, o primeiro passo é procurar um profissional de saúde mental para tentar entender de onde vem isso. É difícil dizer se o sofrimento vem só do trabalho ou se tem a ver também com a vida pessoal”, diz Danielle Admoni, psiquiatra da infância e adolescência, supervisora na residência de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/EPM) e especialista pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria). “Daí o profissional vai começar a desenrolar os problemas nos vários aspectos da vida e também procurar as questões do trabalho”, afirma.

A médica acredita que, depois da pandemia, as empresas abriram mais o olhar para a saúde mental de seus funcionários. “Durante muitos anos as empresas olharam muito para a parte física, para problemas como LER (lesão do esforço repetitivo) e doenças ocupacionais, mas não se falava de saúde mental. Agora elas tem visto que não dá para deixar essa parte de lado”, diz. Até mesmo por uma questão financeira: para a empresa é vantajoso que seus colaboradores estejam bem, pois do contrário eles rendem menos, faltam mais ou acabam saindo do emprego.

Um reflexo disso é que, a partir de 26 de maio, entram em vigor mudanças na NR-1 (Norma Reguladora 1), que trata dos riscos ocupacionais no ambiente de trabalho. Essas mudanças incluem fazer um mapeamento de doenças psicossociais, elaborar planos para diminuir afastamentos por burnout e outras doenças mentais, entre outras medidas.

Mas, mesmo com o avanço da pauta de bem-estar, o ambiente corporativo ainda carrega resquícios de uma cultura que valoriza a resiliência e a produtividade, muitas vezes em detrimento da saúde mental. Se, por exemplo, um colaborador percebe que colegas que se afastaram por problemas de saúde mental foram preteridos em promoções ou tratados com preconceito, ele pode silenciar sobre seus próprios desafios.

Se alguém estiver passando por esse tipo de desafio, eis algumas dicas que podem ajudar:

1- Busque aliados
Identifique colegas, líderes ou profissionais de RH com os quais você se sinta confortável para conversar. Começar por alguém de confiança pode tornar o processo mais seguro.

2 – Formalize
Se seus problemas de saúde mental estiverem interferindo nas suas atividades, pense em formalizar um pedido de ajuda ou flexibilização de horários ou tarefas com base em atestados médicos. Isso garante respaldo legal e reduz o risco de represálias.

3 – Informe-se
Por outro lado, o funcionário não é obrigado a compartilhar seus problemas de saúde mental com a empresa, se não quiser. A lei garante o direito à privacidade, ao afastamento com laudo (que pode ou não conter o CID – Código Internacional de Doenças) e à não discriminação por condição de saúde.

4 – Ajude
Se tiver um colega passando por problemas de saúde mental, é fundamental incentivá-lo a buscar ajuda profissional. “Podemos escutar, dar um suporte, mas a melhor ajuda é incentivar a marcar uma consulta, e até levar a pessoa, acompanhar, dependendo da proximidade que se tenha com ela”, diz Danielle Admoni. É o profissional que vai avaliar se a situação é grave ou não ou se precisa medicar, por exemplo.

Se a saúde mental for tratada como parte da vida profissional, e não como um problema pessoal a ser escondido, e se as empresas promoverem uma cultura na qual a vulnerabilidade não seja vista como fraqueza, mas como parte da experiência humana, todos saem ganhando, tanto as pessoas quanto as corporações.

*Informações Assessoria de Imprensa

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