Nesta pandemia, entre tantas medidas para tentar conter o avanço da Covid-19, uma das mais comentadas é o lockdown. Com frequência, surgem nas redes sociais o questionamento se o lockdown resolve para conter o avanço de casos da doença e diminuir a transmissão do coronavírus.
Um estudo divulgado pelo pesquisador Lucas Ferrante, doutorando pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), sobre a situação de Curitiba (PR) mostra a importância das medidas restritivas e como o lockdown resolve. Mas poderia resolver ainda mais se houvesse uma adesão efetiva e responsável por parte da população.
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A adoção da chamada bandeira vermelha, entre 13 de março e 4 de abril, ajudou a salvar pelo menos 1,5 mil vidas, conforme o artigo de Ferrante e outros pesquisadores do INPA. A bandeira vermelha tinha o objetivo de restringir a circulação de pessoas após Curitiba alcançar uma taxa de transmissão (R) de 1,41 e lotação máxima nas UTIs e enfermarias para pacientes com Covid-19.
Conforme dados apresentados no estudo, no período de um mês, incluindo três semanas de lockdown, a média de novos casos teve uma redução de 50% e as mortes caíram 16,6%. A taxa de transmissão diminuiu para 0,73.
No entanto, o isolamento não atingiu os patamares esperados. Segundo Ferrante, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, o isolamento ficou em torno de 40%, chegando a 60% em alguns dias. “Os resultados são positivos, mas seria necessário um período maior de restrições para frear totalmente a terceira onda”, explicou. De acordo com ele, o ideal seria um isolamento de 90%.
O INPA já havia indicado, no início de março, que Curitiba teria uma terceira onda na pandemia, com número de mortes até quatro vezes maior do que o registrado em 2020. Foram 258 mortes apenas no período de 14 a 20 de março. Para o pesquisador, apesar dos resultados obtidos durante o lockdown, as medidas não foram suficientes para frear uma nova onda. Ainda mais porque houve a opção de um afrouxamento após o dia 5 de abril, quando Curitiba entrou na bandeira laranja, com medidas menos restritivas.
Conforme o pesquisador, a nova previsão para Curitiba indica que a média de mortes por Covid-19 deve permanecer em 35 por dia, com possibilidade de um novo crescimento neste índice e no número de casos a partir de maio. “Embora a contenção apresentada seja positiva, as taxas de óbitos diários que ainda se projetam para Curitiba são inaceitáveis, podendo ser ainda minimizadas com a manutenção das medidas restritivas que têm um resultado”, disse Ferrante ao Estadão.
Lockdown resolve?
Especialistas ouvidos pelo Saúde Debate também citaram em diferentes oportunidades que o lockdown resolve, tanto para frear o contágio quanto para evitar o surgimento de novas variantes do coronavírus, uma das principais preocupações no atual estágio da pandemia de Covid-19.
Uma medida extrema como o lockdown – com o fechamento de atividades não essenciais e a restrição de horários nos serviços considerados essenciais – não agrada a população, mas é necessária quando não há a adesão às medidas básicas de prevenção, como o uso da máscara, o distanciamento social e a higienização frequente das mãos, segundo o médico infectologista e epidemiologista Bruno Scarpellini, do Rio de Janeiro.
Ele concedeu entrevista ao Saúde Debate ainda no início de março, que se tornou o pior mês de toda a pandemia de Covid-19 no Brasil, e ressaltou que, em algum momento, não haveria outra saída a não ser adotar o lockdown.
“As pessoas têm dificuldade de aderir às medidas básicas, seja lá no início, seja cronicamente. É como se o brasileiro tivesse acabado com a pandemia, sem que ela tivesse terminado”, avalia Scarpellini. “Quando há ocupação acima de 70% nos leitos de UTI e variantes que parecem ter maior carga viral e maior transmissibilidade, há necessidade de tomar medidas não farmacológicas mais intensas para diminuir a circulação das pessoas, já que elas não conseguem por livre e espontânea vontade diminuir a circulação”, explicou.
Confira a reportagem na íntegra: “Num futuro próximo, não terá como escapar do lockdown”, diz epidemiologista
A médica infectologista Marta Fragoso, do Hospital Vita, em Curitiba (PR), em entrevista ao Saúde Debate também no mês de março, destacou que o descontrole da pandemia pode criar um “boom” de variantes do coronavírus. A presença de novas cepas com maior potencial de transmissibilidade e a falta de adesão às medidas de prevenção agravam ainda mais o problema. “A variante identificada no Amazonas está circulando livremente porque as pessoas estão se movimentando e não respeitam as regras de distanciamento social ou mesmo para reduzir a movimentação ou para o uso da máscara”, sinalizou.
A médica reforçou que somente medidas rígidas de precaução e redução no deslocamento das pessoas poderiam ajudar no controle da disseminação das atuais variantes e evitar que novas surgissem tão rapidamente.
Confira a reportagem na íntegra: Descontrole da pandemia pode criar um “boom” de variantes do coronavírus





