
A chegada da primavera é sinônimo de flores, temperaturas mais altas – ou pelo menos, deveria – e, para uma boa parte da população, de coriza, espirros, obstrução nasal, olhos vermelhos e lacrimejamento frequentes. A rinite alérgica, uma das doenças respiratórias mais comuns no país, atinge cerca de 30% da população, segundo estimativas da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) — e o problema não fica restrito ao nariz. Estudos apontam que até 70% das pessoas com rinite alérgica também desenvolvem conjuntivite alérgica, além de asma associada em até 40% dos casos.
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Para a otorrinolaringologista Mayra Atalla, do Hospital CEMA, o que costuma acontecer nessa época do ano é, na verdade, uma intensificação de sintomas que muitas pessoas já apresentam. “É uma exacerbação dos sintomas provocada pela maior liberação de pólen e outros aeroalérgenos nessa estação do ano, intensificando os sintomas da rinite.”
Nariz, olhos e um mesmo mecanismo
A especialista explica que, quando o organismo de uma pessoa já sensibilizada entra em contato com o alérgeno, ocorre a ativação dos mastócitos que causam a liberação dos mediadores inflamatórios, responsáveis pelo quadro exacerbado: congestão nasal, coriza, espirros, prurido nasal e lacrimejamento, além da hiperemia conjuntival — o olho vermelho. “É um quadro bem típico”, resume Mayra. O diagnóstico, segundo ela, é clínico, feito a partir dos sintomas relatados pelo paciente, do exame físico e da história de exposição, podendo ser confirmado por teste cutâneo ou pela dosagem de IgE específica no sangue, que identifica a quais aeroalérgenos a pessoa foi exposta.
“Vale lembrar que, se o teste vier positivo, não quer dizer que a pessoa necessariamente tem alergia àquilo, mas que teve uma sensibilização prévia — e é através da história clínica relatada ao especialista que vamos saber se ela é realmente alérgica ou não”, pondera a médica.
Clima em transformação, sintomas por mais tempo
Um ponto de atenção levantado pela especialista é que a própria ideia de “alergia de primavera” pode estar mudando. Não porque o problema esteja desaparecendo, mas porque, com as alterações climáticas, os sintomas podem deixar de ficar tão concentrados em uma única época do ano. “As mudanças climáticas têm alterado bastante o padrão das estações. Hoje, elas já não são tão bem definidas como antes, o que pode fazer com que, no futuro, a chamada ‘alergia de primavera’ deixe de ser tão característica de uma estação específica e passe a estar mais relacionada a fatores ambientais e climáticos.”
A observação da médica dialoga com projeções internacionais: a Organização Mundial da Alergia (WAO) estima que metade da população global poderá conviver com algum tipo de alergia até 2050, cenário atribuído justamente às mudanças climáticas, que ampliam a temporada de polinização. No Brasil, país de clima heterogêneo e estações pouco delimitadas, plantas já liberam pólen e outros aeroalérgenos no ar por períodos mais longos que os três meses tradicionais da primavera — o que também explica por que os sintomas oculares associados à rinite não ficam restritos a setembro, outubro e novembro.
Cuidados e controle ambiental
Segundo a especialista, o tratamento tem como base medidas comportamentais de controle do ambiente, associadas a medicamentos que ajudam a aliviar o desconforto. Entre as recomendações estão:
- Lavagem nasal com soro fisiológico — “é a regra número 1 para todos, principalmente aos alérgicos”, destaca a médica, já que o hábito evita que as partículas de alérgeno permaneçam em contato com a mucosa nasal, prevenindo a manutenção dos sintomas;
- Uso de máscara em locais com mata ou muita vegetação;
- Evitar deixar a casa aberta em dias de alta contagem de pólen, para reduzir a entrada de partículas no ambiente;
- Tomar banho e trocar de roupa após exposição prolongada ao ar livre;
- Evitar secar roupas ao ar livre em períodos de alta exposição a pólen.
No campo medicamentoso, Mayra explica que o tratamento pode incluir anti-histamínicos (antialérgicos) e corticoide nasal, entre outras opções, de acordo com a gravidade do quadro e a característica de cada paciente. “Ainda dentro do tratamento, há a possibilidade de fazer imunoterapia, que é o único tratamento que muda a história natural da doença”, ressalta a especialista, ao citar a opção indicada para casos recorrentes ou mais graves, quando o objetivo é reduzir a sensibilidade ao alérgeno a longo prazo, e não apenas controlar a crise.
Quando procurar um especialista
O ideal é procurar um otorrinolaringologista quando os sintomas forem frequentes, persistentes ou estiverem interferindo na rotina e na qualidade de vida. Espirro repetidos, coriza constante, obstrução nasal e sintomas oculares que aparecem com frequência, especialmente em determinadas épocas ou após exposições específicas, merecem investigação. O paciente com rinite alérgica deve ser avaliado de maneira integrada, com diagnóstico adequado, identificação dos desencadeantes e tratamento certeiro. “Mais do que prever quando começa a primavera, o desafio é entender como o ambiente que respiramos está mudando – e como nossas vias aéreas estão respondendo a essas mudanças”, finaliza.
*Informações Assessoria de Imprensa









