
Muito além de uma simples dor de cabeça, a enxaqueca é hoje uma das doenças neurológicas mais incapacitantes do mundo e um desafio crescente para a saúde pública e para a economia brasileira. Dados do estudo Global Burden of Disease, publicado pela revista Lancet, apontam que mais de 31 milhões de brasileiros convivem com a doença, principalmente mulheres em idade produtiva. As crises podem durar horas ou até dias, comprometendo atividades profissionais, estudos, convivência social e tarefas cotidianas básicas.
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Além do impacto físico e emocional, a enxaqueca também gera um efeito expressivo e ainda subestimado sobre a produtividade e os custos socioeconômicos do país. Um estudo do instituto alemão WifOR, realizado em parceria com a Federação Latino-Americana da Indústria Farmacêutica (Fifarma), mostrou que a carga econômica da doença consumiu 1,6% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2022, o equivalente a aproximadamente R$ 168 bilhões em perdas anuais, índice comparável ao impacto econômico do câncer.
“O impacto da enxaqueca vai muito além das crises de dor. Estamos falando de uma condição neurológica crônica, altamente incapacitante e que afeta diretamente produtividade, relações sociais, saúde mental e qualidade de vida”, afirma Márcio Nattan, neurologista e coordenador do Comitê de Educação da Sociedade Internacional de Cefaleia.
Segundo especialistas, uma parcela significativa desse impacto está relacionada ao subdiagnóstico e à dificuldade de acesso ao tratamento adequado. Atualmente, apenas cerca de 40% dos pacientes recebem o diagnóstico correto, e o tempo médio entre o início dos sintomas e a identificação adequada da doença pode variar entre sete e dez anos².
“O maior desafio da enxaqueca é que ainda existe uma banalização da doença. Muitos pacientes convivem por anos com crises frequentes sem tratamento adequado, recorrendo à automedicação e atrasando o início de terapias preventivas capazes de restaurar a qualidade de vida”, explica Nattan.
Outro fator que agrava o cenário é o estigma social relacionado à doença. Pesquisa apresentada no Simpósio Internacional de Enxaqueca (MTIS) revelou que quase metade dos pacientes escondem a condição. Entre eles, 62% não compartilham o diagnóstico com o empregador, 37% evitam comentar o problema com amigos e 27% sequer falam sobre a doença com o(a) próprio(a) cônjuge.
A consequência é um impacto crescente no ambiente profissional. A enxaqueca está fortemente associada ao absenteísmo e, principalmente, ao presenteísmo, situação em que o trabalhador permanece em atividade, mas com desempenho significativamente reduzido devido à dor e aos sintomas associados, como náuseas, sensibilidade à luz e dificuldade de concentração. O problema afeta especialmente setores intensivos em conhecimento, como tecnologia, educação, saúde e serviços especializados.
O neurologista Márcio Nattan destaca que no ambiente corporativo, a enxaqueca ainda é frequentemente invisibilizada. “Muitas pessoas continuam trabalhando mesmo durante as crises, mas com capacidade cognitiva reduzida, menor rendimento e comprometimento importante da qualidade de vida. Isso gera perdas para o paciente, para as empresas e para o sistema de saúde”.
Especialistas também alertam para o impacto desproporcional da doença sobre as mulheres. Além de fatores hormonais, questões sociais como dupla jornada, sobrecarga doméstica e responsabilidade pelo cuidado familiar contribuem para o agravamento das crises e da incapacidade funcional associada à doença.
Outro desafio importante está no acesso às opções terapêuticas preventivas disponíveis atualmente. Nos últimos anos, avanços no entendimento biológico da enxaqueca permitiram ampliar as estratégias de manejo da doença, incluindo terapias preventivas voltadas à redução da frequência das crises. Entre elas, a toxina botulínica tem sido utilizada em pacientes com enxaqueca crônica, especialmente naqueles que apresentam elevado número de dias de dor ao longo do mês.
“O tratamento preventivo é fundamental para evitar a cronificação da doença e reduzir seus impactos funcionais, emocionais e econômicos. Hoje já contamos com abordagens capazes de diminuir significativamente a frequência das crises e melhorar a qualidade de vida do paciente. Para pacientes com enxaqueca crônica, a toxina botulínica é uma alternativa terapêutica importante, podendo ajudar na melhora da funcionalidade mesmo quando existe intensa incapacidade”, diz o médico neurologista Márcio Nattan.
De acordo com o especialista, ampliar o acesso ao diagnóstico precoce, fortalecer a atenção primária e discutir políticas públicas voltadas ao manejo adequado da doença são medidas essenciais para reduzir o peso da enxaqueca no país.
Reconhecer a enxaqueca como uma condição neurológica incapacitante e investir em prevenção, acompanhamento médico adequado e acesso ao tratamento é uma estratégia que beneficia não apenas o paciente, mas toda a sociedade. Tratar adequadamente a enxaqueca significa reduzir afastamentos, melhorar produtividade e devolver qualidade de vida a milhões de brasileiros”, conclui o coordenador do Comitê de Educação da Sociedade Internacional de Cefaleia Márcio Nattan.
*Informações Assessoria de Imprensa









