Depressão em idosos e a importância do olhar atento da família

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(Foto: Freepik)

Com sintomas um pouco diferentes dos apresentados em outras faixas etárias, a depressão em idosos atinge aproximadamente 15% da população acima dos 60 anos. Em muitos casos, contudo, não há o diagnóstico, pois, pacientes e familiares acreditam que os sintomas são queixas “normais” do processo de envelhecimento, o que pode dificultar o tratamento e acolhimento desses idosos.

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A coordenadora do curso de Psicologia da Faculdade BP – Beneficência Portuguesa de São Paulo, Jonia Lacerda Felicio, cita o psicólogo Erik Erikson ao explicar o conflito entre “sabedoria x envelhecimento”, vivido com o passar dos anos. “Ao olharmos a vida que tivemos, temos a condição de ver que tudo teve um sentido e que fizemos o melhor possível, o que se traduz em “sabedoria”. Mas, muitas vezes, a pessoa se afoga em nostalgia, ressentimentos e arrependimentos, levando a pessoa a um estado de desespero. Assim, idosos ficam mais vulneráveis a quadros de depressão”, explica.

Sintomas da depressão em idosos

Além da falta de ânimo e vitalidade, sintoma comum às diferentes faixas etárias quando há um quadro de depressão, os idosos tendem a expressar a doença com foco maior em queixas físicas, conforme pontua Jonia, se concentrando apenas em dores e doenças que aparecem nessa fase. “A apatia pode ser confundida com um começo de demência, pela distração, esquecimentos e falta de foco, mas é muito importante fazer esse diagnóstico”, complementa.

É comum, também, notar mais irritação ou agressividade, com reações tidas como desproporcionais. “Essa falta de vitalidade também causa dificuldade em atividades que precisam de atenção, além de atrapalhar a memória, sono, alimentação, autocuidado, bem como o convívio social, fazendo a pessoa se isolar e perder autonomia”, reforça

A profissional lembra, também, que a depressão, de modo geral, faz a pessoa duvidar do valor da vida, dos vínculos e realizações, e, por isso, “são frequentes falas sobre morte, e até ideação suicida, ligada a comportamentos de risco e de falta de autocuidado.” Esses sintomas podem ser agravados devido às mudanças que acontecem durante o envelhecimento, como a aposentadoria e o luto, que passa ser mais frequente. “A aposentadoria, período da vida que leva ao afastamento do trabalho e dos grupos sociais, é um fator importante a ser considerado, já que a pessoa precisa ocupar um espaço de tempo com novos interesses e conhecidos. Outro fator é em relação ao luto, de pessoas ao redor, que são momentos inevitáveis da vida.”

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Como a família pode ajudar

É importante lembrar que a depressão vai além de uma simples tristeza, e não deve ser banalizada em função do envelhecimento. Ao notar qualquer sintoma, é importante que a família busque ajuda profissional, evitando atitudes ou falas que minimizem o sofrimento do idoso. “Vale lembrar que ser idoso não é não ter mais vida a ser percorrida, ou ficar à espera da morte. O normal, em qualquer fase da vida, e, especialmente, na terceira idade, é ter interesses, buscas. Neste caso, em um ritmo diferente, mas não apático e depressivo. Se a pessoa apresenta sinais de irritabilidade ou apatia, por exemplo, é necessária uma rede de apoio para auxiliá-la.”

Assim como em outros momentos da vida, o tratamento consiste em encontrar uma abordagem terapêutica que faço sentido para esse idoso e, se necessário, buscar um psiquiatra para avaliar a necessidade de medicação. “De modo geral, as abordagens medicamentosas realizadas por psiquiatras fortalecem a disposição para realizar as atividades e rotinas da vida. Já as abordagens da psicologia comportamental apresentam estratégias para resolver os problemas de forma mais diretiva”, comenta Jonia.

Em contrapartida, os familiares têm papel fundamental no processo, contribuindo para um envelhecimento ativo, que está relacionado a manter a pessoa motivada e parte daquele grupo social. “É fundamental que a pessoa mantenha a saúde social, evitando o isolamento e valorizando os contatos com amigos e familiares. Também é preciso ter mais atenção aos exames e vacinas e, dentro do possível, manter uma atividade física regular”, finaliza.