Sustentabilidade reprodutiva: por que o Brasil precisa falar de fecundidade abaixo de 2,1

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(Foto: Freepik)

A taxa de fecundidade brasileira caiu para 1,55 filho por mulher em 2022, abaixo do nível de reposição populacional (2,1). O dado confirma uma tendência de longo prazo e coloca o Brasil no grupo de países de baixa fecundidade como Suécia e Dinamarca, com impactos diretos no planejamento econômico e social.

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Segundo projeções da ONU, mais da metade dos países do mundo já está abaixo da reposição, o que altera a estrutura etária e pressiona os sistemas de previdência e saúde. A discussão saiu do campo demográfico e entrou no centro do debate sobre produtividade, inovação e cuidado.

Para a Profa. Dra. Marise Samama, presidente da AMCR, a resposta precisa ser sistêmica. “Fecundidade baixa não se resolve com slogans. Exige políticas de apoio à família, creches, programas de planejamento de família e saúde reprodutiva para todos, educação sexual e ambiente de trabalho amigável à parentalidade.”

O comportamento reprodutivo está fortemente associado à escolaridade e à inserção das mulheres no mercado de trabalho. O próprio IBGE indica menor número de filhos entre mulheres com ensino superior, o que reforça a necessidade de políticas que conciliam carreira e maternidade.

A AMCR defende um pacote de medidas: ampliação de creches integrais, flexibilização de jornada, teletrabalho em fases críticas do cuidado e benefícios que reduzam o custo de criação dos filhos nos primeiros anos.

“Quando a sociedade transfere o custo do cuidado quase integralmente para a mulher, o resultado é o adiamento da maternidade e menor intenção de ter o número de filhos desejado. O tema é de equidade de gênero e sustentabilidade social”, afirma Samama.

Experiências internacionais mostram que países que investem em licenças parentais robustas, compartilhadas e remuneradas, conseguem atenuar a queda e mitigar efeitos econômicos negativos do envelhecimento. O desenho dessas licenças importa mais do que a soma de dias.

Além disso, a discussão sobre sustentabilidade reprodutiva também deve considerar o equilíbrio de gênero. Apesar de ser ilegal a seleção de sexo no Brasil, há regiões em que persiste uma pressão cultural pelo nascimento de meninos. Esse fenômeno, observado de forma mais intensa em países como China, Índia e em partes do mundo árabe, tem levado a uma diminuição global de mulheres e reforça a importância de políticas que valorizem igualmente ambos os gêneros e reconheçam o papel da mulher como protagonista no processo reprodutivo. A sustentabilidade reprodutiva do gênero feminino é, portanto, um tema essencial dentro da agenda de equidade e planejamento populacional.

A agenda de sustentabilidade reprodutiva também inclui acesso à reprodução assistida de forma ética, com filas e financiamento transparentes no SUS e parcerias com a rede privada para casos de maior complexidade clínica.

“Baixa fecundidade com altas barreiras à reprodução amplia desigualdades. Precisamos de planejamento reprodutivo que respeite escolhas, amplie oportunidades e garanta acesso a tratamentos quando necessários”, diz Samama.

A AMCR propõe um observatório permanente de indicadores de fecundidade, saúde reprodutiva e parentalidade, com dados integrados para orientar políticas públicas e decisões empresariais.

*Informações Assessoria de Imprensa