
Se você é mulher, provavelmente já ouviu que a dor de cólica é normal. Mas será que é mesmo? Além de não ser considerada normal, cólicas muito intensas e progressivas podem significar condições de saúde mais sérias, como a endometriose. A doença afeta aproximadamente 10% das brasileiras e, além de causar dores fortes, pode impactar, inclusive, a fertilidade.
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Caracterizada pela existência de focos de tecido endometrial fora do útero, a endometriose pode ter origem multifatorial, ou seja: envolve fatores do sistema imunológico, predisposição genética, alterações celulares e até a menstruação retrógrada, quando o sangue menstrual retorna para a cavidade abdominal. “O útero é formado por três camadas: o endométrio (revestimento interno que descama durante a menstruação), o miométrio (camada muscular que promove as contrações) e a serosa (parte externa). Na endometriose, o tecido endometrial migra para regiões da pelve”, explica a ginecologista Graziele Cervantes, que é especialista em cirurgias minimamente invasivas e atua no Studio Gorga Bem-Estar.
A profissional destaca que a doença afeta principalmente mulheres em idade reprodutiva, com um percentual que varia entre 30 e 50% nessa faixa etária. O principal problema, no entanto, é que geralmente há uma grande demora em diagnosticar a doença, o que aumenta o impacto causado às mulheres. “O diagnóstico pode demorar de oito a 10 anos, segundo estudos nacionais e internacionais. Isso ocorre por diversos motivos: falta de informação, dificuldade das pacientes em reconhecer sintomas, formas silenciosas da doença e até a baixa correlação entre extensão da endometriose e intensidade dos sintomas”, comenta, ao lembrar que o acesso agilizado aos profissionais capacitados também faz grande diferença.
Sintomas da endometriose
Os sintomas da doença são variados e, muitas vezes, confundidos com outras questões de saúde, principalmente pela normalização da dor da cólica – que pode ser comum, mas não é, de fato, normal. Segundo Graziele, os sinais podem ser lembrados pela regra dos 6 Ds. São eles:
- Dismenorreia: cólica menstrual intensa e progressiva, muitas vezes incapacitante;
- Dispareunia: dor durante a relação sexual, especialmente a chamada “dor profunda”;
- Dor pélvica crônica: persistente por mais de seis meses;
- Dificuldade para urinar (com ou sem sangramento);
- Dificuldade para evacuar (com ou sem sangramento);
- Dificuldade para engravidar ou infertilidade.
Tais sintomas da endometriose impactam diretamente a qualidade de vida da mulher, principalmente pela dor crônica. “Ela pode gerar distúrbios de sono, queda de produtividade no trabalho, afetando até 70% das pacientes, problemas na vida sexual, em cerca de 80% delas, e impacto psicológico, como ansiedade, frustração e insegurança.” Por isso, o tratamento busca não apenas controlar a doença, mas devolver a qualidade de vida em seus aspectos físico, social, ocupacional e emocional.
Dificuldade para engravidar
Uma das preocupações mais comuns entre as mulheres que recebem o diagnóstico de endometriose e estão em idade reprodutiva, é justamente a dificuldade para engravidar. Contudo, Graziele aponta que a infertilidade pode aparecer em 30% dos casos, principalmente “quando a doença compromete as trompas uterinas ou os ovários, alterando a anatomia ou a reserva ovariana, além de gerar um ambiente inflamatório que pode prejudicar a fecundação”. Portanto, a médica ressalta que a maioria das mulheres com endometriose consegue engravidar.
Vale destacar, porém, que a presença da endometriose pode aumentar o risco de algumas complicações durante a gestação, como maior chance de aborto, placenta prévia e hipertensão. “Isso se deve ao ambiente inflamatório, ao estresse oxidativo e à resistência à progesterona observada em parte das pacientes. Apesar disso, com acompanhamento obstétrico adequado e pré-natal de alto risco, é possível controlar e minimizar esses riscos.”
Tratamento da endometriose
Apesar de não ter cura, atualmente existem métodos eficazes de controle a progressão da doença e, também, dos sintomas. O tratamento pode incluir o uso de métodos hormonais, como DIU, pílulas, adesivos ou injeções para controlar a ação do estrogênio, que está ligado à doença; cirurgia, quando há comprometimento de órgãos vizinhos, infertilidade ou falha do tratamento clínico; bem como mudanças no estilo de vida, com regulação do sono, fisioterapia, acupuntura, alimentação balanceada e a realização de atividade. “Mesmo após a cirurgia, indicada em casos mais graves, há chance de recidiva, já que se trata de uma doença crônica e progressiva. O objetivo do tratamento, portanto, é oferecer controle duradouro e melhor qualidade de vida para as pacientes”, finaliza.









