“Nossa expectativa é ter a vacina contra Covid-19 disponível em meados de 2021”, diz vice-diretora da OMS

A médica paranaense Mariângela Batista Galvão Simão, vice-diretora geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), afirmou que, dentro de um otimismo cauteloso, a vacina contra Covid-19 deve estar disponível em meados de 2021. O comentário foi feito nesta quarta-feira (12 de agosto) durante a reunião da Frente Parlamentar do Coronavírus da Assembleia Legislativa do Paraná, que está tratando de diferentes temas e ações relacionados à pandemia.

“Com um otimismo cauteloso, nossa expectativa é que possamos ter uma vacina disponível para os países em meados de 2021. Vamos ver vacinas sendo colocadas no mercado antes disso, mas colocar no mercado não quer dizer que estará disponível. Até lá, é muito importante manter as medidas tradicionais de saúde pública, com o distanciamento social, evitar aglomerações, uso de máscara, cuidado na reabertura das escolas”, contou Mariângela, que é a responsável pela área de acesso a medicamentos, vacinas e produtos farmacêuticos da OMS.

De acordo com ela, está acontecendo um investimento enorme em vacinas nesse momento, com 160 candidatos a vacina contra Covid-19 em todo o mundo. “São diferentes vacinas de diferentes plataformas. Em algumas delas, inclusive, nunca foram feitas dessa forma, como a com RNA mensageiro, do DNA; algumas com elementos virais. E várias com plataformas tradicionais, como vírus atenuado e vírus inativado. As plataformas tradicionais vão ser mais fáceis de aumentar a capacidade de produção do que as plataformas novas”, salientou.

A médica reforçou a importância de seguir rigorosamente os protocolos determinados para o desenvolvimento de uma vacina. Mariângela relatou, durante a reunião, que a maior parte dos estudos de vacina em andamento está na fase pré-clínica, com pesquisas de laboratório com animais. “Tradicionalmente, só 10% passam para a fase clínica, a etapa seguinte. Quando entra nos estudos clínicos e até um produto chegar ao mercado, 17% deles se comprovam eficazes e seguros. Isso quer dizer que as pesquisas que estão em fase 3, em fase avançada, não têm garantia nenhuma de que é eficaz e seguro”, esclareceu.

A médica contou que na fase 1 são analisadas a segurança e a resposta imunológica, com testagem de 40 a 60 pessoas. Na fase 2 de um estudo de vacina, o público aumenta para centenas de pessoas, quando é possível coletar mais informações sobre a segurança e a dose necessária para uma resposta imunológica. “Se passar para a fase 3, que é a fase mais adiantada, e temos quatro vacinas no mundo nesta fase, milhares de pessoas serão envolvidas para testar segurança e efetividade, comparando com um grupo controle, que recebe placebo. Depois que a vacina entra no mercado, há ainda uma fase 4, em que se faz uma farmacovigilância para avaliar os efeitos da aplicação em massa”, declarou.

Testes em fase 3 de vacina contra Covid-19 no Brasil

Algumas pesquisas de vacina contra Covid-19 que estão em fase 3 também incluíram o Brasil na testagem, como o caso da chamada vacina de Oxford e também da vacina Coronavac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac. Neste último caso, o Paraná está participando da pesquisa com a testagem de voluntários, em uma parceria com o Instituto Butantan, que conduz os trabalhos no país.

Vacina da Sinovac que está sendo testada pelo Hospital de Clínicas (Reprodução: TV UFPR)

A vice-diretora da OMS ainda revelou que, após a realização da fase 3 de testes e a finalização de toda a análise dos estudos, pode-se solicitar o registro da vacina em uma autoridade regulatória, que no Brasil é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Temos, neste momento, 26 candidatos em ensaio clínico e quatro em fase 3 – duas multinacionais, a de Oxford e a Moderna, que é uma empresa americana, com RNA mensageiro, sendo uma vacina totalmente nova. E as duas chinesas: a Sinovac e a do Instituto de Tecnologia de Uhan. São com vírus inativo, que seria de fácil reprodução no mundo”, apontou.

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Vacina russa contra Covid-19

Notícia dos últimos dias, a vacina russa contra Covid-19 também foi abordada durante a reunião da Frente Parlamentar do Coronavírus da Assembleia Legislativa. Até porque o Paraná assinou um memorando com a Rússia nesta quarta-feira (12 de agosto) para a ampliação dos estudos relacionados a essa vacina, o que inclui testagem, produção e distribuição da imunização no estado. O presidente da Rússia, Vladmir Putin, anunciou nesta semana que a vacina russa era a primeira contra Covid-19 a ser registrada em todo o mundo, mas houve questionamentos de organismos internacionais sobre a transparência dos dados desta pesquisa.

“Quanto à vacina da Rússia, não se tem informações sobre qual o estágio real do ensaio clínico. Mas estamos em contato com o governo russo, que tem interesse em pré-qualificar a vacina para poder entrar no mercado internacional. Mas, das informações disponíveis, essa vacina ainda não está em fase 3. Quanto à introdução no Brasil, caberá à Anvisa fazer análise dos dados. A empresa estatal russa terá que fornecer todos os dados, como vai fornecer para a OMS e isso será necessário tanto para autorizar os ensaios clínicos aqui, quanto para, se for aprovada, haver a transferência de tecnologia para a produção local”, disse Mariângela. “Claro que seria excelente se a vacina for realmente eficaz e segura, mas ainda faltam muitos dados para a gente poder dizer isso com segurança”, pontuou.

A médica ainda lembrou que o fato de uma vacina estar na fase 3 da testagem não significa que ela de fato irá funcionar, mas que está na frente das demais pesquisas na progressão do estudo clínico. A eficácia será conhecida apenas ao fim dessa etapa. “E, uma vez que tenhamos uma vacina eficaz e segura, existem outras questões que vão entrar em jogo. Nem toda a vacina serve para todos os grupos etários. Tem vacina que não funciona para pessoas acima de 65 anos porque a resposta imunológica dessas pessoas é menor. As vacinas também não são testadas em mulheres gestantes, por exemplo”, indicou.

Compra internacional de vacina contra Covid-19

Vários países já estão se mobilizando para a oferta e compra de vacinas de Covid-19 que nem estão disponíveis no mercado internacional. E Mariângela expôs que isso também se torna um desafio nesse momento. “Uma vez que tenhamos aprovação de uma vacina, teremos outros desafios. E o primeiro deles, e é nisso que estou trabalhando agora, é assegurar o acesso equitativo a todos os países. Temos uma quantidade considerável de vacinas sendo comprometidas pelo que chamam acordos bilaterais. Os Estados Unidos já compraram a metade de produção de 10 candidatos de vacina, comprometendo o mercado. A União Europeia está indo para o mesmo caminho. Então, a OMS está regulando um sistema global de vacinas. É um mecanismo financeiro global que congrega diversos candidatos de vacina. São reunidos recursos de vários países para investir em mais candidatos de vacina ao mesmo tempo. Neste momento, a OMS está financiando 15 dos candidatos de vacina com os resultados mais promissores”, comentou.

De acordo com ela, esse tipo de trabalho é importante porque existe a certeza de que, em 2021, não haverá vacina para toda a população mundial. Por isso, a OMS está elaborando critérios para vacinar, em primeiro lugar, populações consideradas prioritárias, como é o caso de profissionais de saúde. Na sequência viriam pessoas acima de 65 anos e com comorbidades. “A proposta da OMS é dar acesso a vacina a 20% da população de todos os países. A alternativa a isso é o que aconteceu em 2009, com o H1N1, quando os países ricos acessaram a vacina até oito meses antes dos países em desenvolvimento. Quando a epidemia acabou e sobrou vacina no hemisfério norte, tentaram fazer um dupping para os países em desenvolvimento, mas não era mais necessário para eles também. Então, foi um mau negócio para todo mundo. A diferença, agora, é que essa pandemia não vai acabar, como acabou a da H1N1. Temos um vírus muito mais resiliente”, apontou. “São 167 países participando do mecanismo. Mas ainda há grande incerteza sobre a solidariedade dos grandes compradores, que ainda buscam a reserva de mercado”, frisou.

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p class=”ql-align-center”>Estimativa é ter uma vacina disponível a partir de 2021 (Foto: Arquivo EBC)

Reserva orçamentária do Paraná para a compra de vacina contra Covid-19

O Paraná já tem R$ 200 milhões para a compra de doses da vacina contra Covid-19, sendo R$ 100 milhões do orçamento próprio (indicação para o orçamento de 2021) e R$ 100 milhões de recursos encaminhados via Assembleia Legislativa. Para Mariângela, é excelente ter uma reserva orçamentária para a aquisição de vacina, mas também ter um entendimento de que a solução para o acesso à imunização é global.

“Países vão ter uma dificuldade enorme de fazer negociações individualmente. Você tem, de um lado, o contexto de países ricos, com pequenos mercados, assustadíssimos com o preço absurdo que estão lhes cobrando, enquanto temos países grandes, com maior capacidade de produção e muito mais jogo de mercado para negociar preços. A melhor aposta que o Brasil e que o Paraná podem fazer é uma aposta num fundo global, que vai negociar contratos e preços, do que tentar uma compra direta, pois terá gente com muito mais dinheiro no mercado que esses R$ 200 milhões. É boa a reserva orçamentária, mas não creio que haverá solução individual”, opinou.

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