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Vem, que te conto no caminho!

Diários do Pico do Paraná

por Cris Pereira

22/07/2021
Sobre: Do alto da pedra mais alta
Créditos: arquivo pessoal

Um notório príncipe da região atualmente conhecida como Nepal, afirmou que “toda grande jornada começa com o primeiro passo”.

 

À medida em que vamos adquirindo alguma experiência na vida, aprendemos que, não importa o tamanho da jornada, para dar o primeiro passo com segurança, é fundamental algum planejamento.

 

Para os amantes de trilhas em montanhas, buscar informações prévias sobre o destino, percurso, condições climáticas, recomendações e conselhos práticos de quem já trilhou o mesmo caminho é uma excelente estratégia, considerando os riscos envolvidos em atividades outdoor. O inesperado sempre pode surpreender em qualquer lugar e ocasião, mas, a probabilidade é maior em lugares inóspitos, longe de casa, onde o sinal do celular não alcança. Nas montanhas, quem nunca passou por uma situação complicada que poderia ter sido evitada ou minimizada com algum conhecimento prévio, pode se considerar a exceção à regra.

 

Recentemente, nos deparamos com uma pessoa, aos prantos, à noite, no meio da mata, com um grupo de amigos, em um dos trechos de grampos na trilha que leva ao Pico do Itapiroca. Alegava não estar em condições físicas de agarrar-se aos grampos e içar o corpo para cima com o peso da mochila nas costas. Chorava copiosamente enquanto os colegas tentavam persuadi-la a prosseguir. Estava exausta e assustada. Aparentemente, tudo era novidade para ela e nos comovemos, pois, nós também nos confrontamos, em uma trilha ou outra, ao encarar nossos medos e tendo que ignorar a fadiga para atingir algum topo.

 

Ocorre que, bem ao lado dos grampos, havia um caminho menos complicado, passando por troncos e raízes, mas com um nível de dificuldade infinitamente menor. Como já era noite, o caminho menos percorrido estava oculto e tivemos o privilégio de compartilhar com a jovem trilheira nossa recente descoberta, uma vez que havíamos feito o mesmo caminho na manhã daquele dia.

 

Nas trilhas mais difíceis, parar e observar as opções é sempre uma boa ideia. O mais importante é não ignorar que cada um tem consciência do próprio ritmo e de seus limites. Devemos respeitar isso.

 

No post deste mês, relato em detalhes a trip de minha 3ª ascensão ao teto do sul do Brasil, que aconteceu 3 dias antes da comemoração do octogésimo aniversário da conquista do Pico do Paraná, segundo os registros históricos da expedição coordenada pelo geólogo alemão Reinhard Maack, em 13 de julho de 1941, e aproveito para deixar alguns lembretes e dicas importantes para quem deseja encarar este desafio.

 

Vem, que te conto no caminho!

 

Com seus imponentes 1.877 metros de altitude, encravado na serra do Ibitiraquire, no município de Antonina, no Paraná, cercado por outras montanhas não menos fascinantes que compõe o cenário perfeito para observação nos dias mais firmes de inverno, destaca-se um maciço rochoso, de granito e gnaisse, que atrai, anualmente, aventureiros vindos de todos os cantos do planeta. Sua beleza é indescritível e admirável, tanto para quem o observa de algum cume vizinho, quanto para quem o observa de sua pedra mais alta. Das montanhas que tive a oportunidade de conhecer ao longo dos anos de trilha, sem dúvida, é a mais majestosa.

 

Minha última visita ao PP, como é carinhosamente conhecido, aconteceu há 10 anos. Minha compleição física, disposição mental e percepção das coisas, eram bem diferentes das que tenho hoje. Me considero mais responsável e consciente dos riscos envolvidos nesse desporto.

 

Sábado, dia 10 de julho de 2021. Saímos de casa antes do sol nascer, com a intenção de iniciarmos a trilha pontualmente às 6 horas. Devido a alguns contratempos, iríamos iniciar a trilha com meia hora de atraso.

 

É que a conversa estava tão boa que, por descuido, perdemos a entrada da estrada que dá acesso à Serra do Ibitiraquire, na cabeceira da ponte sobre o Rio Tucum. Por sorte, ainda não havia muito movimento na Régis Bittencourt e conseguimos voltar de ré, pelo acostamento, e acessar a estrada esburacada de aproximadamente 5 km que leva à base da nossa aventura.

 

Embora já tenha percorrido este caminho dezenas de vezes, alguns fatos inusitados aconteceram.

 

Primeiro, o veículo, motor 1.0, morreu em uma das subidas íngremes do trajeto, devido à combinação de outros dois fatores: saibro e neblina. Tivemos que descer de marcha-à-ré, com a visibilidade prejudicada, até um local plano de onde o veículo conseguiu chegar ao final da subida em 1ª marcha, fritando os pneus. O cheiro de pneu queimado e a tensão muscular causada pela adrenalina nos deixaram um tanto quanto inseguros em prosseguir adiante naquelas condições. O veículo estava mais pesado do que habitualmente estávamos acostumados. E aí vai uma dica: em veículo motor 1.0 em dia de neblina, dois passageiros são o recomendado. Mais que isso, o risco do veículo atolar ou não vencer as subidas é enorme e pode estragar o passeio. O motor arriou na subida por estarmos pesados e em baixa velocidade.

 

Não bastasse isso, logo adiante, num trecho mais estreito da estrada, para desviar de uma combi que descia no sentido contrário, caímos em uma vala lateral causada pela erosão. Por alguns instantes, achei que nossa aventura acabaria naquele momento, mas, felizmente, conseguimos desatolar o veículo com facilidade. Aquele momento em que a gente pede e agradece a Deus pelo livramento.

 

Vida que segue... seguimos adiante e a poucos metros da base, outra surpresa nos aguardava. Fomos informados de que não havia mais lugar para estacionar nas duas Fazendas que dão acesso às montanhas do Parque Estadual do Ibitiraquire e nos orientaram a manobrar o veículo dentro da primeira fazenda, para retornar e estacionar na rua, próximo à porteira.

 

Mas, a vida é uma caixinha de surpresas! Fomos agraciados com uma vaga dentro da Fazenda Pico do Paraná, embora nossa intenção fosse estacionar na Fazenda Rio das Pedras, que cobra R$ 20,00 por veículo a diária.

 

A Fazenda Pico do Paraná cobra R$ 20,00 por pessoa, antes das 6h e R$ 15,00 por pessoa, após as 6h da manhã. Por este valor, é possível utilizar a estrutura do local, estacionamento, banheiros e chuveiros pelo período de até 48 horas.

 

Enquanto isso, os veículos se amontoavam do lado de fora e, dentro da propriedade, algumas dezenas, talvez, centenas de pessoas iniciavam a subida rumo aos cumes do parque.

 

E aqui, deixo uma dica importante para quem está iniciando no montanhismo: se você não se sentir preparado física e mentalmente para uma trilha de mais de 5 horas, procure uma montanha menor, menos técnica e que não tenha fama de ser difícil. É isso o que dizem os mais experientes. Para quem deseja conquistar os cumes do Ibitiraquire, o Pico do Caratuva e o Pico do Itapiroca oferecem uma vista incrível do Pico do Paraná e exigem um pouco menos de esforço. Vale à pena iniciar por eles, sem arrependimentos.

 

Voltando ao assunto, senti muita saudade de quando as trilhas não eram tão populares e não havia congestionamento nos grampos e nas subidas, mas, isso é coisa do passado. É impossível não observar a mudança no comportamento das pessoas nos últimos anos e a procura por lugares ao ar livre que propiciem um pouco de aventura e o sentimento de estar vivo, em especial em tempos de pandemia, em que a palavra liberdade parece ter adquirido um novo significado. Contudo, precisamos ir devagar, sempre preocupados com a preservação de nossos recursos naturais, pois conhecemos o impacto da ação desenfreada do homem sobre a natureza e já observamos com assombro o processo de erosão do solo durante todo o trajeto até o Pico do Paraná.

 

Saímos da base rumo ao nosso objetivo às 6:30h da manhã.

 

Nos dispusemos a ir e voltar para casa no mesmo dia, pois, para acampar, teríamos que levar uma série de outros itens, como: barraca, isolante, saco de dormir, fogareiro, panelas, cartucho de gás, entre outros apetrechos indispensáveis para um acampamento bem estruturado, além da alimentação, que inclui alguns litros adicionais de água para preparar um bom café e para a higiene básica. Digamos que, 13 quilos bem distribuídos dentro de uma mochila, para um pernoite.

 

A trilha em si é considerada de nível médio, mas requer muito preparo físico e mental, por isso a recomendação para quem ainda não se sente apto para trilhas de mais de 5 horas de caminhada, que inicie por uma montanha menor e vá progredindo gradualmente.

 

O controle emocional para atingir o PP é exercido desde o início da trilha, na primeira subida íngreme, de aproximadamente 1 quilômetro, até a “Pedra da Desistência”, que não recebeu esse nome por acaso. Da base até o cume, são aproximadamente 6 quilômetros de trilha, subindo e descendo incontáveis pedras, raízes e troncos, às vezes com o auxílio de correntes, cordas e grampos, sem esquecer os trechos enlameados e escorregadios. Além disso, fazer essa trilha com pouco peso nas costas em um dia de inverno, é quase uma missão impossível, mesmo para quem vai de ataque.

 

Seguem os itens da mochila para o dia de trilha, sem pernoite: uma japona, uma corta vento, luvas, balaclava, boné, óculos de sol, celular, bastão de caminhada, cantil com água, cantil com café, sanduíches e outras guloseimas, canivete, lanterna de cabeça, saches de gel energético, saches de Spidufen (ibuprofeno). Quanto à água, a trilha dispõe de, pelo menos, dois pontos para o abastecimento de garrafas (bica, riacho) antes do paredão que leva ao cume do PP. Com isso, não é necessário carregar tantos litros de água desde a base, mas é bom saber que não se pode menosprezar a importância de manter-se bem hidratado durante essa longa e exaustiva caminhada. Em alguns momentos, é justamente a água que nos mantém lúcidos e orientados na trilha.

 

Particularmente, não simpatizo com acampamentos em trilhas longas, pois conheço meus limites. Por isso, para o Pico do Paraná, ir e voltar no mesmo dia, sempre me pareceu uma proposta mais inteligente.

 

Costumo dividir a trilha até o PP em cinco trechos, que podem servir de referência de localização na trilha para quem vai ao Parque Estadual do Ibitiraquire pela primeira vez:

 

1 - da Base até a Pedra da Desistência, cerca de 30 minutos de caminhada em aclive constante e intenso, com direito a uma pausa rápida no mirante de onde é possível observar a Represa do Capivari e algumas montanhas do entorno;

2 - da Pedra da Desistência até o Morro do Getúlio, cerca de 1 hora de caminhada, em trechos de mata fechada e trechos de forte erosão, com solo escorregadio devido aos detritos de pedras. Do Getúlio, é possível observar, à esquerda, os Picos do Caratuva, segunda maior montanha da região, Taipabuçu e Ferraria e, à direita, o Pico do Itapiroca, a quinta maior montanha da região. Estas montanhas formam uma fileira de cumeadas com um enorme valo que as separa do Pico do Paraná;

3 - do Getúlio à primeira bifurcação, que dá acesso ao Morro do Caratuva, cerca de 5 minutos de caminhada, com uma pausa para fotografia na placa que prova que você chegou lá, entrando na região de floresta propriamente dita;

4 - da primeira até a segunda bifurcação, que dá acesso ao Morro do Itapiroca, cerca de 1:30 hora de caminhada. Aqui, o destaque é para a bica d’água, importantíssima em qualquer época do ano, principalmente para quem vai de ataque, pois o retorno é mais exaustivo e o corpo e a mente pedem maior hidratação;

5 - da segunda bifurcação até o cume do Pico do Paraná , cerca de 3 horas de caminhada, com ponto de abastecimento de água em um dos riachos que corta a trilha.

 

Na minha opinião, o 4º e 5º trechos do percurso consistem na etapa mais severa da caminhada até o cume do PP, constituído de raízes aéreas, troncos, pedras, aclives e declives intensos, cordas, correntes e grampos, exigindo maior esforço físico, concentração e coordenação motora, da primeira bifurcação até o início dos grampos no “elevador” que leva ao PP. Nesse trecho, observamos montanhistas aparentemente experientes e bem equipados, lesionados, tendo que abortar a trilha e retornar para a base, o que chamou a nossa atenção e nos fez pensar se chegaríamos ao cume íntegros.

 

Para quem pretende acampar, a trilha conta com dois pontos, os principais, chamados de A1 e A2 (abrigos 1 e 2). Muitos trilheiros preferem pernoitar nos abrigos e realizar o ataque na manhã do dia seguinte, deixando o peso desnecessário no local do acampamento.

 

Passando pelo A1, há uma descida constante de cerca de 30 minutos até a vala que dá acesso ao paredão de grampos que leva ao A2 e ao cume do PP. O paredão de grampos representa um desafio à parte, pois, segundo dizem, tem um apelo muito mais psicológico do que físico e requer coragem e uma certa destreza para superá-lo, com o auxílio dos degraus naturais formados pelas próprias rochas e as fendas em que é possível apoiar as mãos nos trechos em que a distância entre os grampos é mais significativa.

 

Do A2 até o cume, são aproximadamente 40 minutos de caminhada.

 

E assim, depois de caminhar por cerca de sete horas, dia 10 de julho de 2021, eu e mais dois companheiros, chegamos ao cume do Pico do Paraná. Exaustos, mas, realizados, plenos, satisfeitos, sorridentes e deslumbrados com 100% de visão em todas as direções a partir do cume.

 

O dia frio e limpo, característico desta época do ano, foi um belo presente que recebemos.

 

 “chegando ao cume” | arquivo pessoal


Ficamos lá em cima apenas 40 minutos, contemplando e recuperando as forças com um lanche de trilha, juntamente com outras dezenas de aventureiros vindos de todos os cantos do país e até do estrangeiro. Tirei minhas botas para sentir o ar gelado nos pés, inchados e doloridos, mas, como chegar ao cume é só metade da aventura, ainda teríamos 6 km de caminhada até a base e o trajeto até Curitiba, de volta para casa. Assim, iniciamos os preparativos para a descida e nos pusemos a caminhar.

 

O retorno, diga-se de passagem, foi tão exaustiva quanto a ida. O sentimento, de fato, é de superação e de gratidão, inda mais quando ouvimos falar de um acidente fatal que resultou na morte de um aventureiro, no mesmo dia, em outra trilha muito conhecida no Paraná: o Salto dos Macacos, em Morretes.

 

Não ignoro que grande parte das cicatrizes em minhas mãos, braços e pernas, foram adquiridos nesses anos de trilha, algumas por descuido, outras, porque é o risco do negócio, mas, sou mais consciente da importância da informação, do preparo e dos cuidados necessários à sobrevivência em meio à natureza.

 

Há cerca de 30 anos, quando recebi o primeiro convite para uma trilha, não imaginava que, muito tempo depois, relatos como este poderiam contribuir com a formação de outros montanhistas e aventureiros.

 

Hoje, a poucos dias de completar 45 anos de idade, meu coração transborda de gratidão pela vida, pelas experiências, lugares e pessoas de quem tive a oportunidade de extrair os aprendizados que me motivaram a escrever o texto de hoje.

 

Se voltarei ao Pico do Paraná, não sei. Por isso, deixo aqui meu testemunho desta singela façanha, mas de um significado pessoal enorme, pois é uma paixão que me acompanha desde a infância e, se Deus permitir, subirei alturas ainda maiores e voltarei, para compartilhar.

 

Por hora, deixo estas dicas de ouro para aqueles que aspiram respirar o ar de outras montanhas:

 

- Não escolha um montanha técnica, alta ou que tenha fama de ser difícil. Comece pelas montanhas mais acessíveis até sentir-se preparado para desafios maiores. Sugestões: Morro do Canal/Piraquara, Morro do Anhangava e Pão de Loth/Quatro Barras, Rochedinho/Morretes.

- Estabeleça um horário para início e término da atividade e procure respeitar este horário.

- Prefira as roupas coloridas, que contrastam com o verde das matas e facilitam a visualização em caso de resgate.

- Não vá sozinho.

- Verifique a previsão do tempo: https://www.windy.com/, https://www.mountain-forecast.com

- Registre-se no IAT (antigo IAP) antes de iniciar a trilha.

- Não faça fogueiras.

- Não descarte seu lixo nas trilhas.

- Não defeque próximo aos cursos d’água. Enterre suas fezes.

- Respeite seu próprio ritmo, respeite a natureza e respeite a montanha.

 

E encerro com as inspiradoras palavras de Reinhold Messner:

“Os dias que estes homens passam na montanha são os dias que eles realmente vivem. Quando as cabeças se limpam das teias de aranha e o sangue corre com força pelas veias. Quando os cinco sentidos cobram vitalidade e o homem completo se torna mais sensível. Então já pode ouvir as vozes da natureza e ver as belezas que só estavam ao alcance dos mais ousados.”

 

 

*Cris Pereira é graduada em Psicologia pela Universidade Tuiuti do Paraná e atua na área de regulação dos planos privados de saúde desde 2002. É praticante frequente de trekking de aventura há quase três décadas, além de amante de viagens, natureza e fotografia. Neste espaço, compartilha dicas, relatos e impressões de suas aventuras.


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