O acesso cada vez mais cedo a smartphones e tablets tem acendido um alerta entre especialistas em saúde infantil. O que muitas vezes é utilizado como uma ferramenta de distração ou entretenimento passivo pode, na realidade, configurar um risco severo ao desenvolvimento neurológico e emocional das crianças.
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De acordo com a psicóloga e neuropsicóloga Sarah Rebeca Barreto, a exposição excessiva às telas em idades precoces interfere diretamente na formação de circuitos cerebrais essenciais. A especialista explica que o cérebro infantil, em plena fase de plasticidade, necessita de estímulos sensoriais e interações humanas reais para se desenvolver plenamente.
“A introdução antecipada ao smartphone substitui experiências sensoriais fundamentais. Quando a criança passa horas diante de estímulos visuais e auditivos de alta velocidade, o cérebro pode apresentar dificuldades futuras em manter o foco, processar informações complexas e desenvolver o controle de impulsos”, afirma Sarah Rebeca.
Riscos à saúde mental e cognição
A análise neuropsicológica aponta que o uso abusivo de telas está associado ao aumento de quadros de ansiedade infantil, irritabilidade e distúrbios do sono. No aspecto cognitivo, os prejuízos podem se manifestar em atrasos na aquisição da linguagem e na redução da capacidade de abstração.
Uma pesquisa recente publicada pelo periódico JAMA Pediatrics reforça essa preocupação. O estudo acompanhou crianças expostas a telas entre 1 e 4 anos de idade e identificou atrasos significativos no desenvolvimento de habilidades de comunicação e resolução de problemas. Os dados sugerem que, para cada hora adicional de exposição diária, os riscos de déficits em marcos do desenvolvimento aumentam proporcionalmente.
Embora o uso de dispositivos eletrônicos muitas vezes funcione como um suporte para pais sobrecarregados, a recomendação clínica é a substituição do tempo digital por atividades em família. A especialista ressalta que, embora essa mudança demande mais energia e disponibilidade emocional dos responsáveis, ela é o único caminho para reverter danos. “O vínculo afetivo e a brincadeira estruturada são insubstituíveis. É fundamental que os pais busquem o equilíbrio, trocando o isolamento do dispositivo por momentos de interação direta, como leitura, jogos de tabuleiro ou atividades ao ar livre. O desenvolvimento saudável depende da qualidade do tempo compartilhado”, explica a neuropsicóloga.
Diretrizes e recomendações de saúde
As principais organizações de saúde, como a Sociedade Brasileira de Pediatria, estabelecem parâmetros claros para mitigar esses riscos. Para crianças de até 2 anos, a orientação é a exposição zero, inclusive de forma passiva. Entre os 2 e 5 anos, o limite deve ser de apenas uma hora por dia, sempre sob supervisão. Além disso, é essencial garantir a segurança do sono e da nutrição, evitando o uso de telas durante as refeições e garantindo o desligamento de qualquer aparelho pelo menos duas horas antes do repouso. O foco central deve ser a preservação da infância como um período de exploração do mundo físico e fortalecimento de laços sociais.
*Informações Assessoria de Imprensa