De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 10% e 15% das mulheres em todo o mundo sofrem de endometriose, doença em que tecido semelhante ao endométrio (revestimento interno do útero) cresce fora dele, em lugares onde não deveria estar, como os ovários, trompas de Falópio, a superfície externa do útero, a bexiga e o trato urinário, o intestino e até mesmo áreas mais distantes, como o diafragma, podendo causar dor intensa. No Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Endometriose (SBE), a condição afeta cerca de 8 milhões de mulheres.
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Médico ginecologista obstetra, especializado em videolaparoscopia, cirurgia minimamente invasiva para tratamento da endometriose e autor do livro Descomplicando a endometriose, Jardel Pereira Soares afirma que por seu alcance a doença não pode mais ser ignorada, mas que por suas características, infelizmente, continua sendo motivo de descaso entre pacientes e médicos. Ele explica que a condição é muitas vezes silenciosa, apresentando em alguns casos sintomas amenos que cedem com analgésico e antiinflamatórios. “Isso faz com que pacientes, famílias e até profissionais da saúde a subestimem”, diz.
Para evitar que a endometriose seja menosprezada, Soares recomenda um olhar mais atento aos sintomas da doença. Com o intuito de facilitar a tarefa, ele aponta os sinais mais comuns, destacando que a condição pode afetar diferentes órgãos, e seus sintomas dependem da localização e da gravidade das lesões. São eles:
Consequências da negligência médica e a importância do exame físico
O descaso médico – reflexo não apenas da falta de conhecimento sobre a doença, mas também de uma abordagem inadequada nas consultas médicas, tanto na rede pública quanto no particular – resulta em atraso no diagnóstico da doença. “Estudos mostram que mulheres com endometriose podem levar, em média, 7 anos a 10 anos para obter o diagnóstico correto. Com relação a pacientes adolescentes, esse atraso pode variar de 12 anos a 14 anos”, afirma o ginecologista obstetra. O atraso na determinação da doença, por sua vez, acarreta sofrimento prolongado para as pacientes (há casos extremamente graves, que geram dores incapacitantes), e em tratamentos que muitas vezes são paliativos e errôneos.
O autor do livro Descomplicando a endometriose afirma que um dos passos mais negligenciados no diagnóstico das doenças por profissionais da saúde é o exame físico. “Atualmente é cada vez mais raro que ginecologistas realizem uma avaliação clínica detalhada, confiando exclusivamente em exames de imagem, como ultrassonografias ou ressonâncias magnéticas”, declara. Tal prática, complementa o médico, prejudica o diagnóstico, já que alguns dos exames não conseguem identificar todas as formas de endometriose, especialmente as lesões pequenas, chamadas de endometriose superficial, assim como em pacientes mais jovens, como pré-púberes e púberes. Além disso, a conduta de evitar exames físicos desumaniza a consulta médica e gera custos elevados, muitas vezes desnecessários, ao Sistema Único de Saúde (SUS)”, diz.
Conforme o ginecologista obstetra, o exame físico direcionado, que inclui o toque vagina, a palpação de estruturas pélvicas, e a identificação de nódulos, aderências ou áreas de dor localizada, é uma ferramenta crucial para o diagnóstico da endometriose, especialmente quando há presença de sintomas como dispareunia, sintomas urinários e dor ao evacuar. “Ele permite identificar claramente as regiões afetadas, tornando mais fácil para o profissional especializado realizar um mapa mental do que pode estar comprometendo a paciente”, explica. Por exemplo, comenta Soares: sensibilidade aumentada em áreas específicas pode indicar lesões profundas; comprometimento do reto ou do septo retovaginal também são comuns em casos de endometriose profunda, e órgãos menos móveis durante a palpação são indícios de que há sinais de aderência.