Durante anos, o sarampo pareceu pertencer ao grupo de doenças que haviam deixado de fazer parte do cotidiano das famílias. A percepção de que “ninguém mais tem isso”, porém, pode criar uma falsa sensação de segurança e reduzir a atenção à vacinação. Altamente contagioso e capaz de provocar complicações graves, o sarampo voltou a avançar em diferentes partes do mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 11 milhões de pessoas contraiam a doença ao longo de 2026.
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Nas Américas, o avanço do sarampo também acende um alerta. Dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) mostram que, até 5 de setembro de 2026, foram confirmados 52.676 casos da doença em 17 países e territórios, 3,8 vezes mais do que no mesmo período de 2025. Guatemala, México, Estados Unidos, Peru e Canadá concentram 99,5% dos registros, além de 61 mortes. Diante desse cenário, a OPAS classifica como muito alto o risco para a saúde pública e destaca que 2026 já registra o maior número de casos confirmados de sarampo nas Américas em mais de duas décadas.
No Brasil, embora o país mantenha o status de livre da transmissão sustentada do sarampo, a situação exige atenção. O Ministério da Saúde já confirmou mais de 40 casos da doença em 2026, sendo a maioria no estado de São Paulo. A ocorrência de casos importados ou relacionados à importação reforça a importância de manter a vacinação em dia e fortalecer a vigilância epidemiológica. O Brasil teve a eliminação da circulação endêmica do sarampo recertificada pela OPAS em novembro de 2024, mas a alta circulação do vírus em outros países das Américas aumenta o risco de novas importações e reforça a necessidade de manter a população protegida.
“O Brasil ainda mantém a certificação de país livre da circulação endêmica do sarampo, mas isso não significa que novos casos não possam ocorrer por aqui. Países com os quais temos uma intensa circulação de pessoas, como Estados Unidos, Canadá e México, estão registrando um número elevado de casos. Existe, portanto, o risco de uma pessoa contrair o vírus em um desses locais e trazê-lo para o nosso país. Nesse contexto, a vacinação é fundamental para manter a população protegida”, explica Janaína Teixeira, professora de Infectologia da Afya São João del Rei.
A especialista reforça que a circulação internacional mantém pessoas não imunizadas vulneráveis. “O vírus continua circulando em outras partes do mundo, principalmente em países próximos da gente. Uma pessoa que não está com a vacinação em dia e não foi protegida contra a doença permanece vulnerável: pode adoecer e transmitir o sarampo para outras pessoas, aumentando a circulação do vírus no país”, alerta.
Por que as crianças preocupam?
A atenção à população infantil não é por acaso. As crianças pequenas estão entre os grupos mais vulneráveis às complicações do sarampo. Nas Américas, a OPAS identificou que o surto tem afetado de maneira desproporcional essa população, com as maiores taxas de incidência entre bebês menores de 1 ano. Cerca de dois terços dos casos confirmados analisados não tinham histórico documentado de vacinação contra a doença. Para Isabela Pires, professora de Pediatria na Afya Educação Médica Brasília, a proteção começa pela caderneta. “É essencial conferir o cartão de vacinas das crianças pequenas. Uma caderneta completa protege não apenas a própria criança, mas toda a comunidade contra doenças como o sarampo e a rubéola”, afirma.
No calendário de rotina, a vacina tríplice viral é administrada em duas doses: a primeira aos 12 meses e a segunda aos 15 meses. Em situações de surto ou risco aumentado de exposição, autoridades de saúde podem recomendar estratégias adicionais, como campanhas de bloqueio e a chamada “dose zero” para crianças menores de 1 ano. Essa dose antecipada não substitui as duas previstas no calendário de rotina. Além de altamente transmissível, o sarampo pode provocar complicações respiratórias e neurológicas.
Segundo o Ministério da Saúde, aproximadamente uma em cada 20 crianças com sarampo pode desenvolver pneumonia, enquanto a encefalite aguda pode ocorrer em uma a quatro a cada mil crianças infectadas. A doença costuma começar com sintomas semelhantes aos de um quadro respiratório intenso. “Normalmente, o sarampo se apresenta como um resfriado forte, acompanhado de conjuntivite, manchas planas e vermelhas pelo corpo, intenso mal-estar e febre alta”, explica Isabela.
“Nas crianças, também podem ocorrer complicações auditivas, por lesão do nervo auditivo, e oftalmológicas, como cegueira decorrente de úlceras na córnea. A encefalite, causada pela agressão do vírus ao tecido cerebral, também pode acontecer. Mais raramente, existe ainda a panencefalite esclerosante, uma complicação grave que pode surgir anos após a infecção”, acrescenta a pediatra.
A médica destaca que alguns sinais exigem atenção especial, principalmente quando há histórico de viagem ou passagem por regiões com circulação do vírus e a criança não está completamente vacinada. “Se a criança esteve em um local com surto e não está vacinada ou tem vacinação incompleta, é importante ficar atento. Entre três e sete dias depois, o aparecimento de um quadro semelhante a um resfriado forte, com febre alta e conjuntivite, que evolui para manchas no corpo, deve ser investigado”, orienta Isabela.
Quando a doença deixa de ser vista, o risco pode parecer menor
O avanço do sarampo nas Américas também evidencia outro desafio que é o de quando uma doença deixa de fazer parte da realidade cotidiana, a percepção sobre sua gravidade pode diminuir. “Quando a gente não vê uma doença, principalmente porque ela deixou de circular graças às altas taxas de vacinação, a população para de se preocupar. Muitas pessoas já não sabem como é uma pessoa com sarampo e não vivenciam mais a gravidade da doença”, explica Janaína.
A própria experiência profissional da infectologista ilustra esse fenômeno. “Eu sou infectologista, mas não tenho experiência com sarampo porque não tive essa vivência durante minha residência ou especialização. Na minha formação e na minha atuação profissional, não tenho visto casos porque as pessoas estavam vacinadas e protegidas”, conta.
Segundo ela, o mesmo processo ocorreu com outras doenças cuja circulação foi reduzida pela vacinação. “Isso é muito evidente com o sarampo, mas também aconteceu com doenças como a poliomielite. Foram doenças terríveis no passado e que hoje deixamos de ver com frequência justamente porque a vacinação conseguiu reduzir sua circulação”, afirma.
A ausência de casos, porém, não significa que o vírus tenha desaparecido. Enquanto houver circulação internacional e pessoas suscetíveis, existe possibilidade de reintrodução. Por isso, a recomendação para pais e responsáveis é conferir a caderneta de vacinação e procurar uma unidade do SUS em caso de doses atrasadas ou dúvidas sobre o esquema.
Vacinação é principal barreira contra a doença
Segundo a Vigilância Epidemiológica, crianças e jovens de 12 meses a 29 anos devem receber duas doses da vacina tríplice viral. Pessoas de 30 a 59 anos devem receber uma dose, enquanto trabalhadores da saúde, independentemente da idade, devem receber duas doses, conforme as recomendações vigentes. A orientação é conferir a situação vacinal e procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima para atualizar as doses.
Manter uma cobertura vacinal elevada é fundamental para interromper a transmissão e ampliar a proteção da comunidade. “Quando uma criança está vacinada, ela está protegida individualmente contra o sarampo, mas também ajuda a proteger outras pessoas por meio da proteção comunitária. Se o vírus chega a um país em que a grande maioria da população está vacinada, ele não encontra tantas pessoas suscetíveis e temos mais chances de interromper a cadeia de transmissão”, explica Janaína.
Para ela, a proteção deve ser mantida mesmo quando não há circulação ampla da doença. Afinal, a vacina é extremamente segura e seus efeitos adversos costumam ser leves e autolimitados. Já o sarampo pode trazer sequelas graves e até levar à morte. Por isso, a prevenção é fundamental.
*Informações Assessoria de Imprensa