
A resistência antimicrobiana se consolida como uma das maiores ameaças à saúde pública no Brasil e no mundo. Sob a ótica da Patologia Clínica, o cenário nacional é particularmente preocupante por combinar o aumento expressivo das taxas de resistência bacteriana com grandes desigualdades na qualidade e no acesso ao diagnóstico laboratorial em microbiologia.
Segundo André Doi, patologista clínico e diretor científico da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), no Brasil, ainda é frequente o uso empírico prolongado de antibióticos, muitas vezes sem a realização de culturas microbiológicas, testes de sensibilidade ou métodos moleculares capazes de identificar mecanismos específicos de resistência. “Essa prática compromete a efetividade dos tratamentos, eleva a mortalidade, prolonga o tempo de internação e pressiona os custos assistenciais”, ressalta.
Doi explica que na rotina dos laboratórios clínicos, o avanço das bactérias multirresistentes é evidente. “Observa-se um aumento consistente de enterobactérias produtoras de carbapenemases, inclusive com coprodução de diferentes enzimas pelo mesmo isolado. Também se destaca as elevadas taxas de resistência em Pseudomas spp. e Acinetobacter spp. Isso restringe as opções de tratamento das infecções causadas por esses agentes”.
Com perfis de resistência cada vez mais complexos, o papel do laboratório de microbiologia torna-se estratégico. Além do antibiograma convencional, cresce a necessidade de testes confirmatórios, imunocromatográficos e métodos moleculares para apoiar decisões clínicas mais seguras e eficazes. “O diagnóstico laboratorial rápido e preciso é um pilar no enfrentamento da resistência antimicrobiana. Ele permite identificar precocemente o agente etiológico, detectar mecanismos de resistência, orientar a terapia adequada e possibilitar o descalonamento seguro do antibiótico, reduzindo a pressão seletiva sobre as bactérias”, afirma o especialista da SBPC/ML.
O uso inadequado ou excessivo de antibióticos, sem suporte laboratorial, traz consequências graves tanto para o paciente quanto para o sistema de saúde. Falhas terapêuticas, eventos adversos, infecções prolongadas ou recorrentes e aumento da mortalidade são alguns dos impactos diretos. “Do ponto de vista sistêmico, há elevação das internações, maior tempo de permanência hospitalar, uso de antibióticos mais caros e disseminação acelerada de microrganismos multirresistentes”, acrescenta Doi.
Outro fator relevante, de acordo com o patologista clínico, é o uso extensivo de antibióticos na agropecuária, que contribui para a seleção e a disseminação de genes de resistência no ambiente. “Esses mecanismos podem retornar à população humana por meio da cadeia alimentar, da água e do contato ambiental, reforçando o conceito de Saúde Única (One Health), que integra saúde humana, animal e ambiental”, ressalta.
Para André Doi, a mensagem central é inequívoca: “antibiótico não é um medicamento inofensivo e não deve ser utilizado sem critério. Para a população, isso significa usar antibióticos apenas com prescrição e orientação adequadas. Para os profissionais de saúde, significa compreender que o diagnóstico laboratorial de qualidade não é opcional, mas parte essencial do cuidado”.
Segundo ele, investir em exames microbiológicos rápidos, confiáveis e bem interpretados, além de profissionais especializados e laboratórios estruturados, é uma estratégia que salva vidas, preserva a eficácia dos antibióticos disponíveis e contribui para a sustentabilidade do sistema de saúde.
*Informações Assessoria de Imprensa







