
Você com certeza já reclamou, ou ouviu alguma reclamação, sobre a dificuldade em conseguir agendar uma consulta com médicos especialistas. Seja por um plano de saúde ou um atendimento particular, a sensação de que faltam profissionais tem ficado cada vez mais comum. Mas, como isso é possível, se aproximadamente 45 mil médicos se formam todos os anos no Brasil?
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Parece que a conta não fecha e, enquanto isso, a agenda daquele médico desejado está disponível só para daqui três ou quatro meses – com sorte! Para quem mora em cidades do interior, há, ainda, a necessidade de buscar outra cidade, dependendo da especialidade. Os motivos para essa mudança no cenário da medicina no país são vários, mas todos recaem em um mesmo ponto: o número de profissionais formados não se traduz em especialistas. Seja por uma mudança geracional, pelo aumento no número de mulheres – que buscam outras especialidades -, ou pela dificuldade de acesso às vagas de residência, o desafio tem se tornado cada vez maior e mais urgente. Afinal, como resolver esse problema?
A médica e conselheira Suplente pelo Paraná no CFM – Conselho Federal de Medicina, Viviana de Mello Guzzo Lemke, abordou o assunto em um dos painéis realizados na 31ª edição do Suespar – Simpósio das Unimeds do Estado do Paraná, promovido pela Federação paranaense em agosto. “Há grande defasagem entre vagas e espaço na residência, com grande aumento no número de médicos generalistas sem especialidade. Em paralelo, há a desvalorização do valor pago pelas bolsas de residência. Em 1988, por exemplo, o valor da bolsa de estudo equivalia a mais de seis salários-mínimos. Em comparação, a remuneração em 2025 corresponde a pouco mais de dois salários-mínimos e meio. É uma desvalorização crescente, que gera desmotivação”, disse.
Com esse cenário, muitos médicos recém-formados optam por deixar a especialização para um segundo momento, pois há vagas de trabalho mais vantajosas, com uma remuneração mais interessante e, inclusive, cargas horárias mais baixas que a residência em si. Atrelado a isso, está, também, o alto valor da mensalidade das graduações em Medicina: muitos estudantes recorrem aos financiamentos estudantis para possibilitar a formação e, quando a conta chega, após a formação, é necessário colocar o financeiro antes do desejo pessoal.
Em paralelo, uma pesquisa do CFM apontou para o crescimento desregulado de pós-graduações em Medicina, sendo que 90% dos cursos são pagos e mais de 40% completamente na modalidade à distância. No entanto, vale a definição: a pós não confere Registro de Qualificação de Especialista (RQE) junto ao CRM – Conselho Regional de Medicina. Dessa forma, o profissional continua com o título de generalista, o que nem sempre fica claro para os pacientes. “Há o impacto na segurança do paciente, falta de regulamentação e fiscalização adequadas. São cursos prioritariamente teóricos, diferentes da residência em que há prática assistencial supervisionada em ambientes reais, vivenciando, de fato, a especialidade desejada.”
O diretor Administrativo e Financeiro da Unimed Paraná, Alexandre Gustavo Bley, que também participou do painel, reforçou as mudanças comportamentais que acompanham o novo perfil dos médicos. De modo geral, eles buscam, mais do que nunca, segurança e previsibilidade, o que não é percebido no tipo de remuneração praticado hoje em dia, que tem como base a produtividade do profissional. Ou seja: quanto mais consultas e atendimentos, maior o valor pago – independentemente da qualidade. Dessa maneira, os profissionais têm passado a priorizar vagas que ofereçam pagamento por turno ou por hora.
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De outro lado, há o crescimento no número de mulheres dentro da Medicina, impactando diretamente na escolha das especialidades. Aquelas consideradas intervencionistas, como as cirúrgicas, bem como as mais “masculinizadas”, como a urologia e ortopedia, têm sido menos procuradas, acendendo um alerta sobre a possibilidade de faltar médicos nessas áreas futuramente. “Como gestores de cooperativas, nosso papel é equilibrar interesses, evitar conflitos e gerar equidade aos médicos-cooperados, sejam eles jovens ou não. A pesquisa mostra, por exemplo, que são fontes essenciais de atração questões como estrutura adequada para o trabalho e cidades ou regiões que possibilitem a qualidade de vida que os médicos procuram”, completou o dirigente.
É fato que a Medicina, assim como tantas outras profissões, tem passado por mudanças constantes – e elas impactam diretamente os usuários e pacientes. Agora, o desafio das operadoras de saúde e dos Conselhos – sejam eles Regionais ou Federais – é a busca por uma solução que sane os anseios e necessidades de ambos os lados, médicos e pacientes.







