A saúde suplementar brasileira produz um grande volume de informações diariamente. São registros obrigatórios relacionados a atendimentos, exames, procedimentos, internações, autorizações, cadastro dos beneficiários, programas preventivos, dados financeiros e assistenciais enviados continuamente à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Essas informações permitem à autarquia acompanhar indicadores regulatórios de qualidade assistencial, sustentabilidade econômico-financeira e até identificar ressarcimentos devidos ao SUS (Sistema Único de Saúde). O problema é que nem sempre números e realidade se encontram para contar a mesma história.
Um exemplo aparece na própria lógica de acompanhamento da saúde da população idosa. Parte das métricas regulatórias considera o acesso ao geriatra, médico da família e clínico geral como um indicativo importante de cuidado integral e adequado. Mas, na prática, muitos idosos brasileiros ainda buscam diretamente especialistas conforme a necessidade específica, como ortopedistas, cardiologistas ou neurologistas, sem necessariamente passar por um geriatra ou clínico geral. Isso significa que, muitas vezes, os dados mostram apenas parte da realidade e deixam de captar nuances importantes do comportamento dos beneficiários e das dinâmicas assistenciais.
Essa discussão é particularmente relevante porque, na saúde suplementar, boa parte das decisões estratégicas, regulatórias e reputacionais depende diretamente da qualidade das informações reportadas. Índices como o IDSS, análises econômico-financeiras, indicadores assistenciais e métricas de qualidade são construídos a partir dos dados enviados pelas próprias operadoras. Quando essas bases apresentam inconsistências, falhas cadastrais, ausência de padronização ou problemas de integração entre áreas, o retrato final pode não refletir adequadamente a realidade. O risco é que indicadores passem a contar histórias distorcidas, influenciando avaliações regulatórias, decisões de negócio e a própria percepção do mercado.
Nos últimos anos, o setor passou a sentir de forma mais intensa os impactos regulatórios da qualidade da informação. O próprio movimento da ANS em torno do cruzamento entre bases TISS e DIOPS demonstra um cenário de maior rigor sobre consistência e precisão dos dados enviados pelas operadoras. Isso acontece porque os indicadores regulatórios deixaram de ser apenas instrumentos técnicos de acompanhamento. Hoje, eles influenciam a reputação institucional, competitividade comercial, participação em licitações, negociação com empresas contratantes e percepção de mercado. Em muitos casos, a nota do IDSS também impacta metas internas, remuneração variável e programas de participação nos resultados.
Além disso, quando a operadora trabalha com informações pouco organizadas, ela compromete sua própria capacidade de tomada de decisão. Afinal, como estruturar programas preventivos eficientes, avaliar custos assistenciais ou medir performance clínica se a base de informação não é confiável? A saúde suplementar não sofre com falta de dados. O desafio é transformar volume em análises capazes de orientar decisões estratégicas e operacionais.
Nesse contexto, a discussão sobre governança de dados não pode ser limitada à área de tecnologia. Ela envolve processos, metodologia, cultura organizacional e participação efetiva das áreas de negócio. Governança significa estabelecer responsabilidades sobre quem produz, valida, acompanha e utiliza as informações dentro das operadoras. Significa também compreender que qualidade de dados não é um projeto pontual, mas um trabalho contínuo de amadurecimento operacional.
*Flávio Exterkoetter é diretor Médico e CEO da Blendus Tecnologia em Saúde. É mestre em Ciência da Computação pela UFSC, graduado médico pela UNISUL e especialista em governança de dados regulatórios aplicada aos planos de saúde.
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