Menstruar não deveria ser um luxo: a urgência da dignidade menstrual no Brasil

schedule
2026-05-27 | 16:00h
update
2026-05-27 | 16:38h
person
Saúde Debate
domain
Saúde Debate
(Foto: Freepik)

Menstruar ainda é, para milhões de brasileiras, uma experiência atravessada por privação. No consultório, a queixa costuma chegar como cólica, irregularidade do ciclo, fluxo intenso. Mas, por trás do relato clínico, existe um tema que permanece pouco dito e que merece ser tratado com a centralidade que exige: a possibilidade de atravessar o período menstrual com o mínimo de dignidade. A chamada pobreza menstrual não se resume à falta de absorventes. Ela inclui a ausência de água encanada, de banheiros seguros e de informação capaz de reduzir medo, vergonha e desinformação, especialmente entre meninas.

O impacto dessa realidade aparece primeiro no corpo. Sem produtos de higiene adequados e sem condições básicas de limpeza, aumentam os riscos de infecções urogenitais, irritações e complicações que poderiam ser evitadas. Mas a consequência não é apenas física, ela atravessa o bem-estar emocional e social. A literatura científica tem apontado de forma consistente o peso psicossocial da falta de infraestrutura: a insegurança para trocar um absorvente, o constrangimento de manchar a roupa, a sensação de estar “suja” ou inadequada por algo absolutamente fisiológico. Estudos publicados em periódicos como PLOS Medicine e The Lancet associam a precariedade das condições menstruais a estresse, ansiedade e perda de bem-estar, sobretudo em contextos de vulnerabilidade.

Publicidade

O resultado é uma exclusão que costuma passar despercebida. Meninas faltam à escola; mulheres faltam ao trabalho. No Brasil, essa interrupção não é pontual: ela reforça um ciclo de desigualdade que começa cedo e se prolonga na vida adulta. Em cenários extremos, ainda se encontram improvisos como pano, papel e outros materiais inadequados, não como escolha, mas como falta de alternativa. Além de colocar a saúde em risco, isso corrói a autoestima e aprofunda a ideia de que menstruar é algo que deve ser escondido, suportado em silêncio.

Nos últimos anos, o país deu passos importantes ao iniciar políticas de distribuição gratuita de absorventes para pessoas em situação de vulnerabilidade, reconhecendo que o acesso a itens de higiene menstrual é uma questão de saúde pública. Ainda assim, a efetividade dessas políticas depende de continuidade, logística eficiente e alcance real em comunidades vulneráveis. A própria literatura médica, incluindo definições e análises reunidas no BMJ Global Health, é clara ao afirmar que o problema não se resolve apenas com o produto. Dignidade menstrual exige um pacote mais amplo: educação em saúde para que a primeira menstruação não seja um trauma, mas parte do processo de crescer, saneamento básico, porque água e sanitários são elementos elementares de saúde, e combate direto ao estigma que transforma a menstruação em sinônimo de sujeira.

Há um fio que liga a saúde menstrual à autonomia. Assim como o Brasil discute o acesso e a qualidade do pré-natal e da assistência obstétrica, temas frequentemente analisados na saúde pública, a construção desse cuidado começa muito antes: na adolescência, quando a menina aprende a reconhecer seu corpo, compreender seus ciclos e desenvolver segurança para buscar orientação e direitos. Se o país falha em proteger a menina que menstrua hoje, falha com a mulher que precisa estudar, trabalhar e decidir sobre sua vida amanhã.

Enfrentar a pobreza menstrual, portanto, é mais do que um gesto de assistência, é política de redução de desigualdades. A integração entre atenção básica e assistência social pode ser decisiva para evitar que famílias precisem escolher entre comer e comprar um pacote de absorventes. E, como sociedade, é preciso encarar o óbvio: garantir dignidade menstrual é fortalecer a saúde física e mental da população e remover uma barreira silenciosa que ainda limita educação, produtividade e cidadania no Brasil. Superar esse desafio é dar às meninas e mulheres a base mínima para viver com saúde, segurança e pleno pertencimento social.

*Aline Marques é ginecologista e obstetra do Hospital e Maternidade Santa Joana

Atenção! A responsabilidade do conteúdo é do autor do artigo, enviado para a equipe do Saúde Debate. O artigo não representa necessariamente a opinião do portal, que tem a missão de levar informações plurais sobre a área da saúde. 

Leia outros artigos  publicados no Saúde Debate

Publicidade

Cunho
Responsável pelo conteúdo:
saudedebate.com.br
Privacidade e Termos de Uso:
saudedebate.com.br
Site móvel via:
Plugin WordPress AMP
Última atualização AMPHTML:
27.05.2026 - 16:45:55
Uso de dados e cookies: