O medo de descobrir doenças graves afasta 36,4% dos adultos de consultas preventivas, apesar de o diagnóstico precoce elevar as chances de cura para 90%. Os dados são, respectivamente, do National Institutes of Health (NIH) e do periódico científico Journal of Primary Care & Community Health.
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Em sintonia com os números internacionais, um estudo do Global Burden of Disease apontou que, somente em 2023, fatores modificáveis causaram 46% dos casos de incapacidade física no mundo. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) informou que a evasão médica agrava prognósticos e amplia os custos de tratamentos tardios por câncer e problemas cardiovasculares.
O comportamento de fuga dos serviços de saúde ganhou nomenclatura específica: FOFO, sigla em inglês para fear of finding out (medo de descobrir). Ainda segundo o NIH, pessoas em sofrimento psicológico grave apresentam 1,64 vezes mais chances de adiar a consulta.
Barreiras logísticas, estigma social e desconfiança institucional somam-se ao medo como fatores que afastam pacientes dos consultórios. O impacto recai especialmente sobre diagnósticos de câncer e doenças cardiovasculares, que exigem intervenção precoce para melhores prognósticos. Procedimentos de rotina, como fazer uma endoscopia, acabam postergados por essa combinação de fatores.
Atraso fecha janela de cura e eleva gastos com tratamento
Nos casos oncológicos, o diagnóstico tardio significa a perda de uma janela importante de oportunidade em que o câncer é mais tratável e menos incapacitante. Tumores que poderiam ser identificados em fases iniciais, especialmente de mama e próstata, acabam sendo encontrados em estágios avançados. Cânceres de colo do útero, intestinal e colorretal, cuja taxa de sucesso de diagnóstico pode aumentar usando colonoscopia com citologia, seguem o mesmo padrão quando o exame é evitado.
Identificar precocemente outros quadros também permite que a equipe médica trate e evite complicações graves: infarto, acidente vascular cerebral, aneurismas e insuficiência cardíaca podem ser prevenidos com intervenção oportuna. Mesmo testes simples, como exames de sangue, quando feitos no tempo certo, evitam complicações e transmissão de infecções.
Cérebro busca alívio imediato e cria ciclo de evasão
A psiquiatra Milena Sabino Fonseca, da Rede D’Or, explica que o FOFO acontece porque o cérebro tenta proteger o indivíduo do medo. Quando a pessoa imagina a possibilidade de uma má notícia, isso gera ansiedade intensa. Para reduzir esse desconforto, ela evita o exame. “Essa fuga traz um alívio imediato e o cérebro o interpreta como uma recompensa”, afirmou a especialista em entrevista ao Estadão.
A evasão ao cuidado médico se manifesta em três dimensões. A primeira é do distanciamento protetivo, que ocorre quando indivíduos se afastam deliberadamente dos serviços de saúde como forma de autoproteção percebida. A segunda é a multidimensionalidade, que engloba aspectos físicos, cognitivos, emocionais, sociais e comportamentais. A variabilidade se manifesta desde o cancelamento de consultas até estados de ansiedade e negação de sintomas.
A fé, que é a terceira, pode funcionar como escudo emocional contraproducente. Em contextos de medo, a crença religiosa pode ser distorcida, fazendo com que o paciente transfira a responsabilidade para o divino e abandone o autocuidado por receio do diagnóstico.
Vergonha e preconceito somam-se a falhas estruturais
Muitas unidades de saúde oferecem horários que conflitam com compromissos de trabalho ou cuidado com os filhos. Dificuldades administrativas, como problemas de agendamento e questões relacionadas a planos de saúde, somam-se à falta de transporte. A ausência de instalações de tratamento nas comunidades locais completa o quadro de barreiras estruturais.
O estigma social é outro impedimento. Mulheres obesas, por exemplo, adiam exames por vergonha de se despir ou por experiências negativas anteriores com profissionais de saúde. Pessoas da comunidade LGBTQIA+ também podem evitar o sistema devido a atitudes preconceituosas ocorridas no passado. Em alguns casos, a rejeição por parte dos profissionais reduz a divulgação da orientação sexual durante consultas e atrasa a busca por cuidados.
As próprias instituições também são alvos de desconfiança, devido a denúncias de corrupção, má prática e violência. A falta de confiança no sistema de saúde, em médicos e na ciência, frequentemente alimentada por negligência institucional ou desinformação, cria resistência às intervenções baseadas em evidências.
Exames invasivos e estigmatizados são os mais evitados
Exames como colonoscopia, ginecológicos e mamografia lideram a lista de procedimentos evitados. A colonoscopia é rejeitada tanto pelo medo de descobrir algo grave quanto pelo desconforto imaginado com o preparo e a sedação.
Testes para HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis também são negligenciados. O temor do estigma social impede que muitos pacientes iniciem o tratamento em fases precoces da infecção.
Um estudo sobre fobias específicas conduzido por pesquisadores da norte-americana Temple University vincula fobias específicas, como a dental e a de sangue e injeção, à esquiva médica. O medo extremo de dentistas ou de procedimentos envolvendo agulhas e a possibilidade de sangue paralisa a busca por cuidado.
*Informações Assessoria de Imprensa