Casos registrados recentemente em passageiros de um cruzeiro na América do Sul chamaram atenção para o hantavírus, infecção viral rara e potencialmente grave monitorada por autoridades de saúde. O navio saiu da Argentina, região onde circula o vírus Andes, variante associada à transmissão limitada entre humanos, com destino a Cabo Verde, arquipélago próximo à costa noroeste da África.
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Transmitido principalmente por roedores silvestres, o hantavírus pode causar complicações pulmonares severas, especialmente nos casos da chamada síndrome pulmonar por hantavírus.
Segundo Anna Léa Silva, doutora em Microbiologia e professora de Biomedicina do IBMR, integrante do maior e mais inovador ecossistema de qualidade do Brasil, o Ecossistema Ânima, o que torna a doença preocupante é justamente sua rápida evolução clínica.
“É uma doença grave, com chance alta de morte, em torno de 40% dos casos. Ela pode evoluir muito rapidamente, afetando principalmente os pulmões”, explica a especialista.
Existem duas apresentações clínicas mais conhecidas da doença: a febre hemorrágica com síndrome renal e a síndrome pulmonar por hantavírus. No caso monitorado envolvendo o navio, a cepa identificada foi justamente o vírus Andes, associado à forma pulmonar da doença.
A especialista destaca que existem diferenças importantes entre os tipos de hantavírus circulantes na América do Sul. “A maioria dos hantavírus não é transmitido de pessoa para pessoa. A exceção é o vírus Andes, encontrado principalmente na Argentina e no Chile, mas mesmo nesses casos a transmissão entre humanos é considerada limitada”, afirma.
A infecção ocorre, na maioria das vezes, pela inalação de partículas contaminadas com urina, fezes ou saliva de roedores infectados. Os animais funcionam como reservatórios naturais do vírus.
Os sintomas iniciais costumam ser inespecíficos e semelhantes aos de outras viroses respiratórias, o que dificulta o diagnóstico precoce. Febre, dores no corpo, dor de cabeça e mal-estar estão entre os sinais mais frequentes.
“Muitas vezes pode ser confundido com gripe ou outras infecções virais comuns. O problema é que alguns pacientes evoluem rapidamente para formas graves”, alerta Anna Léa Silva.
O diagnóstico leva em consideração o histórico clínico, possível contato com áreas infestadas por roedores e exames laboratoriais específicos, como o RT-PCR. Outro fator que chama atenção é o longo período de incubação do hantavírus, que pode chegar a até 60 dias.
Por isso, pessoas expostas ao vírus costumam ser monitoradas e orientadas a permanecer em observação durante esse período. “Uma pessoa pode começar a apresentar sintomas até dois meses depois da infecção. Esse acompanhamento é fundamental para rastrear possíveis locais de contaminação e conter novos casos”, explica.
Apesar da repercussão recente, o risco de surtos amplos ou de uma pandemia é considerado baixo. “O hantavírus não é um vírus novo e não apresenta perfil pandêmico. Normalmente os casos acontecem de forma isolada ou em surtos localizados”, diz a biomédica.
No Brasil, os registros se concentram principalmente em áreas rurais das regiões Sul e Sudeste, onde existem espécies de roedores capazes de carregar outros tipos de hantavírus. Já o vírus Andes, identificado no caso do cruzeiro, não circula no território brasileiro.
*Informações Assessoria de Imprensa