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Em busca da boa morte: como assim?

Em cuidados paliativos não aceleramos, nem apressamos a morte, ela chega de forma natural, na hora que tem que chegar

por Jociane Casellas

29/11/2021
Créditos: jcomp / Freepik

Que coisa mais estranha ...


Buscar uma boa morte... E a morte pode ser boa?


Muito de nós não gostamos de pronunciar nem sequer de ouvir a palavra morte. Quando isso acontece “batemos na madeira”, como que querendo “isolar” o fato. Ou dizemos os famosos ditados: “vira essa boca pra lá”, ou ainda “vamos mudar de assunto”?! Como se o assunto trouxesse mal agouro.


Falar sobre a morte é tabu em nossa sociedade. Ninguém toca no assunto, ninguém quer falar sobre ela, mesmo sendo a coisa mais certa da vida.


A morte chegará para todos, isso é inegociável.


Ocorre que, a forma como uma pessoa que nos é querida morre, ficará para sempre gravado em nossa memória. Seja ela de forma ruim, sofrida, dolorosa, ou seja de forma serena, tranquila, sem sofrimento. Com o agravante de que se a morte foi lenta, sofrida e mal cuidada, o sofrimento decorrente disso pode ser mais intenso do que o esperado.


Chamamos de boa morte aquela que conta com os cuidados necessários, com alívio de todos os sintomas, na presença de quem se ama, em local confortável e familiar.


Na área da saúde, presenciamos todos os tipos de morte, desde as mais sofridas e solitárias – o que é lamentável - até as mais bonitas e serenas, cercada de cuidado e de afeto.


É esse tipo de morte que todos deveriam ter, com respeito, com zelo daquilo que nos é sagrado, sem dor e sofrimento de qualquer espécie, cercado daquilo que nos é importante, e o fundamental: com dignidade.


Morrer é algo tão íntimo e tão único quanto nascer. É também um momento de exposição de nossas fragilidades. Tanto ao nascer quanto ao morrer precisamos de cuidados, precisamos de alguém sensível ao nosso lado que nos ajude a passar de uma instância para outra, e que reconheça nossa vulnerabilidade naquele momento.


No século passado era muito comum as pessoas morrerem em suas casas, em seus espaços sagrados, perto dos seus. Crianças participavam desse momento, e de todo o ritual, nada era omitido. Inclusive velórios eram feitos em casa, no meio da sala muitas vezes. Isso trazia um certo consolo e conforto para quem morria e para a família que ficava. Com o tempo a morte foi sendo transferida para o hospital, de repente ela não podia mais ser vista ou acompanhada, e tudo foi ficando escondido, velado e distante, por vezes combatida e prolongada.


Com o início do movimento dos cuidados paliativos, a morte passou a ser debatida e divulgada de forma natural pois nesse contexto é entendida como algo que faz parte da vida. Em cuidados paliativos não aceleramos, nem apressamos a morte, ela chega de forma natural, na hora que tem que chegar. E todo suporte é dado tanto para quem está partindo quando para os familiares e acompanhantes que ficam.


E assim vamos trabalhando para que a morte seja boa, ela não precisa, e não deve, ser temida, combatida, escondida. Ela precisa ser cuidada, ser acompanhada, amparada para que a pessoa que vivencia esse momento se sinta acolhida, cuidada, importante para a equipe de cuida e a família que está junto.


A boa morte é possível quando nos damos conta da importância que isso tem. Para isso é preciso estudo, treino, ciência, políticas de acesso, estrutura, disponibilidade, empatia, compaixão, trabalho pessoal interno, respeito e humanidade.


Com esses e outros elementos mais, muito sofrimento pode ser evitado.


*Jociane Casellas é psicóloga formada pela Universidade Tuiuti do Paraná e atua há mais de 10 anos na área da saúde. Pós- graduada em Psicologia Clínica com ênfase na abordagem Sistêmica, pós-graduada em Psicologia Hospitalar especialista em Psico-Oncologia, com atuação em Cuidados Paliativos. Pós-graduanda em Psicologia Transpessoal e Mestranda em Bioética, além de colunista do portal Saúde Debate


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