
Nos últimos dias, denúncias e investigações envolvendo conteúdos online reacenderam o debate sobre a adultização infantil no Brasil. O tema, que ganhou força nas redes sociais e chamou atenção de órgãos de fiscalização, traz à tona a importância de compreender os riscos emocionais e sociais de expor crianças e adolescentes a comportamentos, responsabilidades e estéticas incompatíveis com sua idade. De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a legislação brasileira reconhece a “condição peculiar de pessoa em desenvolvimento” e proíbe qualquer forma de negligência, exploração, violência ou constrangimento.
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A chamada adultização acontece quando comportamentos, preocupações e responsabilidades típicos de adultos passam a fazer parte da vida de crianças ou adolescentes antes que tenham recursos emocionais e cognitivos para lidar com essas demandas. “É um descompasso entre a fase de desenvolvimento e o que o ambiente exige. Uma menina de 9 anos que passa horas se maquiando e publicando fotos inspiradas em influenciadoras adultas, ou um menino de 12 que sente a obrigação de ‘ser o homem da casa’ e ajudar financeiramente a família, já estão sendo expostos a um peso que não deveriam carregar”, explica Aline Silva, psicóloga e head de psicologia da plataforma de saúde mental Telavita.
Segundo a especialista, os sinais podem incluir mudança repentina de interesses, abandono de brincadeiras, adoção de vocabulário e temas adultos, como estética corporal, relacionamentos e preocupações financeiras. “Basta alguns cliques para encontrar crianças reproduzindo coreografias sexualizadas ou participando de desafios que exploram a estética e o comportamento de forma incompatível com a idade”, alerta Aline.
O amadurecimento saudável, por outro lado, segue etapas graduais, com autonomia e responsabilidades, surgindo de forma acompanhada e orientada. “Quando há um ‘salto’ abrupto, sem apoio emocional, os riscos aumentam. Uma criança de dez anos incumbida de pagar contas ou tomar decisões de adulto perde etapas essenciais do desenvolvimento, o que pode gerar sobrecarga e prejuízos emocionais”, afirma a psicóloga.
Os impactos imediatos incluem ansiedade, insegurança, irritabilidade, isolamento social e baixa autoestima. A longo prazo, podem surgir transtornos de ansiedade, depressão, distúrbios alimentares e dificuldade em estabelecer limites nas relações, de acordo com a especialista. “Muitos adultos que foram adultizados na infância relatam um sentimento de ‘infância perdida’ e a incapacidade de relaxar ou aproveitar momentos de lazer”, aponta Aline.
Para prevenir, pais, escolas e plataformas digitais precisam agir em conjunto. “As famílias devem garantir um ambiente de segurança emocional e estabelecer limites claros, evitando expor crianças a situações ou conteúdos adultos; as escolas devem incluir a educação socioemocional no currículo e debater o uso consciente da tecnologia; e as plataformas precisam reforçar mecanismos de verificação de idade e moderar conteúdos de risco”, recomenda.
Quando a adultização já ocorreu, o acompanhamento psicológico é essencial. A terapia individual ajuda o jovem a reconhecer os impactos da sobrecarga precoce, reconstruir a autoestima e retomar vivências adequadas à idade. “A terapia familiar pode reorganizar papéis e responsabilidades, e atividades coletivas, como grupos terapêuticos, oficinas de arte e esportes, auxiliam na reaproximação com experiências lúdicas. É a oportunidade de resgatar aspectos da identidade que foram deixados de lado, questionar padrões impostos e desenvolver recursos internos para lidar com a vida de forma equilibrada”, explica a psicóloga.
Aline ressalta ainda o papel das campanhas e denúncias públicas para conscientizar a sociedade. “A ação do Felca e a repercussão do caso do Hytalo Santos funcionam como um alerta social, estimulando pais, escolas e empresas a repensarem comportamentos que, mesmo sem intenção, podem estar normalizando a adultização”, finaliza.
*Informações Assessoria de Imprensa







