Burnout atinge 68,9% dos médicos de UTI no Brasil; IA no prontuário pode ajudar a reduzir a sobrecarga
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2026-10-15 | 11:00h
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2026-10-15 | 13:12h
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Saúde Debate
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(Foto: stefamerpik/Magnific)
O burnout atinge 68,9% dos médicos que atuam em UTIs no Brasil, segundo pesquisa nacional com 2.338 profissionais conduzida pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM).
Publicado em agosto na revista científica Critical Care Science, o levantamento mostra ainda que quase metade dos entrevistados (48,5%) apresenta nível alto de exaustão emocional, uma das dimensões do burnout. O excesso de carga horária nas escalas de trabalho esteve associada a maior prevalência de burnout. Dormir bem ao menos três noites por semana esteve associado à menor prevalência.
A sobrecarga também aparece fora dos hospitais, na rotina administrativa dos consultórios. O Panorama das Clínicas e Hospitais 2026AMP, pesquisa da Doctoralia e da Feegow com 639 gestores e profissionais de saúde de todo o país, mostra que 87% das clínicas agendam consultas pelo WhatsApp e 86% confirmam pelo mesmo canal, muitas vezes de forma manual. Quase três em cada dez recebem mais de 50 ligações por dia, e 34% convivem com taxa de faltas acima de 11%, o que gera remarcações e encaixes ao longo do dia. A demanda também chega fora do expediente: segundo o Perfil do Paciente Digital 2026AMP, estudo realizado pela Doctoralia com base nos mais de 33 milhões de acessos mensais na plataforma, 33% dos pacientes preferem fazer o agendamento de consultas fora do horário comercial, ou seja, antes das 9h ou depois das 18h.
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“O médico passa o dia cuidando dos outros e, entre um atendimento e outro, ainda precisa responder mensagens, reorganizar a agenda e concluir registros. Essa sensação de que o trabalho nunca termina consome a energia”, afirma o Dr. Richard Echterhoff, psiquiatra disponível na Doctoralia.
O cenário se repete em outros países. Nos Estados Unidos, médicos têm 82% mais chance de burnout do que trabalhadores de outras áreas, segundo estudo da Universidade Stanford publicado na Mayo Clinic Proceedings em 2025. As consequências chegam ao atendimento: uma metanálise publicada no British Medical Journal (BMJ), que reuniu 170 estudos com mais de 239 mil médicos, mostrou que profissionais com burnout têm o dobro de chance de se envolver em incidentes de segurança do paciente.
IA como aliada
Parte da solução passa por reduzir o tempo gasto com tarefas administrativas, e a inteligência artificial vem sendo testada com esse objetivo. Um estudo publicado em outubro de 2025 no JAMA Network Open, revista científica da Associação Médica Americana, acompanhou 184 médicos e outros profissionais de atendimento ambulatorial em seis redes de saúde dos Estados Unidos, antes e depois da adoção de um assistente de IA que ouve a consulta e redige o registro clínico. Em 30 dias, a taxa de burnout passou de 51,9% para 38,8%. Os participantes relataram ainda menor carga mental, quase uma hora a menos por semana de documentação fora do expediente e mais atenção ao paciente durante o atendimento. Como a pesquisa comparou os mesmos profissionais antes e depois, sem grupo de controle, os resultados indicam uma associação, que ainda precisa ser confirmada por estudos maiores.
No Brasil, ferramentas desse tipo já fazem parte da rotina de consultórios e clínicas. A Doctoralia reúne soluções para diferentes etapas do dia a dia médico. O Noa Notes usa IA para gerar resumos clínicos estruturados que apoiam o preenchimento do prontuário: já foi usado por mais de 10 mil médicos no país, em mais de 1 milhão de transcrições, e economiza até 30% do tempo de consulta. O Noa Evidence responde dúvidas clínicas com base em diretrizes e literatura científica revisada por pares, sem que o médico precise interromper o atendimento para pesquisar. Na gestão, a agenda online funciona 24 horas e envia lembretes automáticos por WhatsApp, SMS ou e-mail, o que reduz ligações e confirmações manuais da secretária.
“A boa tecnologia ajuda a reduzir a sobrecarga da rotina médica. Com a IA apoiando a elaboração dos registros clínicos e o acesso a evidências científicas, além do agendamento online e dos lembretes automáticos aos pacientes, o profissional pode dedicar menos tempo a tarefas operacionais e mais ao cuidado e à própria vida fora do consultório”, afirma Juliana López Pineda, country manager da Doctoralia Brasil e Chile.
Esse compromisso também orienta a campanha “Doctoralia contra o burnout médico”, em alusão ao Dia do Médico, 18 de outubro. A iniciativa busca dar visibilidade à sobrecarga dos profissionais e apresentar soluções para reduzir tarefas administrativas, abrindo mais espaço para o cuidado com os pacientes e com a própria saúde.
Sinais de alerta
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define o burnout como uma síndrome causada por estresse crônico no trabalho que não foi bem administrado. Ele aparece em três frentes: exaustão, distanciamento ou negativismo em relação ao trabalho e queda no desempenho profissional. O Ministério da Saúde lista sinais como cansaço físico e mental excessivo, insônia, dificuldade de concentração, alterações repentinas de humor, isolamento, sentimentos de incompetência ou fracasso e dores de cabeça e musculares frequentes.
Outro conceito que ganha espaço é o burn on, termo criado pelos pesquisadores alemães Bert te Wildt e Timo Schiele para descrever um estado de exaustão crônica em que a pessoa continua trabalhando normalmente, sem chegar ao colapso. O termo ainda não é reconhecido como diagnóstico pela OMS, mas ajuda a nomear um quadro comum entre profissionais de alta exigência.
“No burn on, o médico segue atendendo, cumpre a agenda e muitas vezes ninguém percebe. Por fora, parece que está tudo bem. Por dentro, há cansaço constante, culpa por não dar conta de tudo e perda do prazer no trabalho. Numa profissão em que resistir é visto como virtude, esse quadro costuma passar despercebido até pelo próprio profissional”, explica o psiquiatra Richard Echterhoff.
O que ajuda
Proteger o sono. Na pesquisa da Amib, dormir bem ao menos três noites por semana esteve associado a menor risco de burnout.
Automatizar o que é repetitivo. Confirmações de consulta, remarcações e registro clínico podem ser feitos com apoio de tecnologia, liberando tempo do médico e da equipe.
Definir limites para o contato fora do expediente. Combinar com a equipe e com os pacientes horários para mensagens e usar canais automáticos para agendamentos ajuda a preservar o descanso.
Atenção ao álcool. Estudo com 7.288 médicos americanos, publicado no American Journal on Addictions, identificou abuso ou dependência de álcool em 12,9% dos homens e 21,4% das mulheres, com associação a burnout e depressão. O Ministério da Saúde recomenda evitar álcool, tabaco e outras drogas e manter atividade física regular.
Procurar ajuda profissional. O diagnóstico é feito por psiquiatra ou psicólogo, e o tratamento pode incluir psicoterapia e, em alguns casos, medicamentos.
“A tecnologia ajuda a tirar peso da rotina, mas não substitui o cuidado. Se o cansaço, a irritação ou a insônia persistem por semanas, o caminho é procurar um psiquiatra ou psicólogo. Médico também adoece e precisa ser cuidado”, conclui Echterhoff.
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