
O período do verão brasileiro traz um aumento significativo da circulação de diversos vírus. Entre eles, o Coxsackievirus, causador da Doença Mão-Pé-Boca (DMPB), que, embora seja mais frequente na infância, pode acometer indivíduos de todas as idades. Nessa época de maior convívio social e viagens, cresce o alerta para as manifestações da doença em adultos e idosos, que podem enfrentar quadros severos e diagnósticos tardios.
Leia também – Calor extremo e infecções: por que o verão favorece doenças gastrointestinais e urinárias
O alerta ganha um rosto com o caso de Iara da Silva Belleza, de 86 anos, moradora de Copacabana. Hipertensa e diabética, a idosa precisou ir três vezes a um pronto-socorro até obter o diagnóstico correto. O que inicialmente parecia um machucado por calçado novo evoluiu para grandes bolhas nas mãos e nas solas dos pés, que, ao se romperem, geraram grande preocupação por causa do risco de complicações relacionadas com o pé diabético.
“Quando as primeiras bolhas apareceram, achei que fossem um machucado feito por um chinelo novo, mas, no dia seguinte, outras bolhas surgiram nos dois pés e nas mãos. Só na terceira ida à emergência é que uma infectologista fez o diagnóstico desse vírus. Fiquei com muita dificuldade de andar, pois tinha bolhas até na sola dos pés. Pensei que isso fosse doença só de criança, mas a médica explicou que também acomete os idosos”, desabafa Iara.
Altamente contagiosa e de difícil diagnóstico em adultos
A propagação da doença mão-pé-boca é impulsionada pela circulação de enterovírus como Coxsackievirus A16 e A71, cujo contágio é significativamente potencializado pelas altas temperaturas e pela maior interação social típica do verão, como explica a infectologista Dra. Luísa Chebabo, do Bronstein e Sérgio Franco, laboratórios da Dasa, líder de medicina diagnóstica no Brasil, no Rio de Janeiro.
Para ela, um dos maiores desafios no diagnóstico em adultos é a falsa percepção de que a doença é exclusiva da infância ou de que uma infecção prévia garante proteção total.
“Como é muito associada a creches e escolas, muitos profissionais e pacientes não suspeitam da virose em adultos ou idosos. No entanto, o vírus sempre teve potencial para atingir qualquer faixa etária, e o calor do verão facilita essa disseminação.” Na maioria dos casos, o diagnóstico é clínico, mas pode contar com a realização exames de sangue para avaliação dos leucócitos e da proteína C reativa (PCR), que aumentam durante inflamações e infecções.
A imunidade para essa síndrome não é permanente nem universal para todos os sorotipos circulantes. “Por isso, idosos ou adultos com comorbidades, como o diabetes, podem manifestar quadros consideravelmente mais dolorosos, com lesões extensas e um risco elevado de complicações, como infecções bacterianas secundárias que surgem com o rompimento das bolhas”, alerta a especialista.
A disseminação da doença mão-pé-boca é extremamente elevada, ocorrendo por meio do contato direto com saliva, secreções nasais, fezes de pessoas infectadas ou pelo toque em superfícies e objetos contaminados. “Nas férias, o compartilhamento de utensílios, o uso de piscinas comuns e a maior convivência em ambientes fechados com ar-condicionado aceleram a propagação dos enterovírus.”, comenta Luísa.
A importância da vigilância é reforçada pelo Ministério da Saúde, que monitora surtos da doença em diversas regiões do Brasil: dados¹ apontam o último surto da infecção em 2023, quando mais de 1.700 notificações foram registradas apenas no estado do Rio Grande do Sul. O órgão alerta que, embora a maioria dos casos seja autolimitada, o vírus (especialmente o Enterovírus 71) pode evoluir para complicações neurológicas, como meningite asséptica e encefalite, independentemente da idade.
Como prevenir
A infectologista explica os principais cuidados para evitar a doença:
- Higiene das mãos – lavar as mãos com água e sabão frequentemente, sobretudo depois de usar o banheiro.
- Desinfecção de superfícies – limpar e desinfetar superfícies e objetos tocados com frequência, incluindo brinquedos.
- Isolamento social – evitar o contato próximo (beijos, abraços, compartilhamento de talheres) com pessoas doentes. Pacientes devem permanecer em repouso até o desaparecimento dos sintomas (em média sete dias em casos leves) para evitar novos surtos.











