As redes sociais transformaram-se em arenas de disseminação de informações, onde conteúdos de diferentes naturezas competem por atenção. Essa democratização, embora positiva em muitos aspectos, trouxe desafios significativos, especialmente no que tange à qualidade e veracidade das informações compartilhadas.
A Vulgarização de Conceitos Científicos: Exemplo do caso DOPAMINA
Um exemplo emblemático é a simplificação do papel da dopamina, frequentemente referida como o “hormônio do prazer”. Essa abordagem reducionista ignora a complexidade das funções dopaminérgicas, que envolvem motivação, aprendizado e comportamento adaptativo (Wise & Robble, 2020 – DOI:10.1016/j.neuron.2020.09.024).) Estudos demonstram que a dopamina está envolvida em processos de reforço e aprendizado, sendo fundamental para a formação de hábitos, inclusive os relacionados a comportamentos aditivos.
A popularização do termo levou ao surgimento de práticas como o “jejum de dopamina”, que propõe a abstinência de estímulos prazerosos para “reiniciar” o sistema de recompensa do cérebro. No entanto, especialistas alertam que essa prática carece de embasamento científico sólido e pode resultar em interpretações equivocadas sobre o funcionamento neurológico que é certamente muito mais complexo que essa simplificação. Infelizmente vivemos uma realidade de “neurocientistas” formados em finais de semana e até com currículos construídos em outras áreas diversas da saúde (como economia ou direito). A caminhada para construção de conteúdo científico na saúde é longa. Lembro que apenas neuroanatomia e neurofisiologia me valeram de dois anos de árduo estudo na graduação médica. Isso para entender apenas para entender a base da neurologia, sem contar com os anos posteriores sobre patologias (neurologia e também correlacionados a psiquiatria).
Dando continuidade ao exemplo da dopamina, vejam que muito além de ser “hormônio do prazer” seguem algumas interações da dopamina que não tem relação nenhuma com a psiquiatria e são vitais para o funcionamento do organismo.
Função motivacional e de recompensa: atua no circuito mesolímbico e mesocortical, regulando expectativa de recompensa, aprendizado e comportamento motivado, não diretamente “prazer” (Schultz W. (2007). Behavioral dopamine signals. Trends in Neurosciences. https://doi.org/10.1016/j.tins.2007.03.007)
Controle motor: nas vias nigroestriatais, está envolvida no controle fino de movimentos. Sua deficiência está associada à doença de Parkinson.(: Obeso JA et al. (2008). Missing pieces in the Parkinson’s disease puzzle. Nat Med. https://doi.org/10.1038/nm0508-653)
Uso clínico em UTIs: A dopamina é usada como droga vasoativa, com efeitos dependentes da dose : Baixas doses (1-2 mcg/kg/min): efeito dopaminérgico → vasodilatação renal e esplâncnica; Doses intermediárias (2-10 mcg/kg/min): efeito β1 → ação inotrópica positiva (↑ contratilidade cardíaca); Altas doses (>10 mcg/kg/min): efeito α1 → vasoconstrição periférica (↑ PA). (Marik PE. (2007). Low-dose dopamine: a systematic review. Chest. https://doi.org/10.1378/chest.06-1497)
Desequilíbrios dopaminérgicos estariam associados a quadros de: Esquizofrenia (excesso dopaminérgico em certas vias); TDAH (déficit de dopamina pré-frontal)( Howes OD, Kapur S. (2009). The dopamine hypothesis of schizophrenia: version III. Schizophr Bull. https://doi.org/10.1093/schbul/sbp006)
Consequências da Desinformação na Saúde Populacional
A disseminação de informações incorretas nas redes sociais pode ter impactos diretos na saúde pública. Um exemplo recente ocorreu durante a pandemia de COVID-19 houve notícias desencontradas sobre tratamentos e vacinação, mesmo entre médicos, o contribuiu para a hesitação vacinal e a adoção de práticas ineficazes. Uma revisão sistemática identificou que a exposição a desinformação em saúde está associada a comportamentos prejudiciais e à redução da confiança em autoridades sanitárias (Zhao, S., Hu, S., Zhou, X., Song, S., & Wang, Q. (2023). The Prevalence, Features, Influencing Factors, and Solutions for COVID-19 Vaccine Misinformation: Systematic Review. JMIR Public Health and Surveillance, 9, e40869.).
Além disso, a desinformação pode afetar a saúde mental da população, gerando ansiedade, medo e confusão. A Organização Mundial da Saúde destaca que a infodemia – excesso de informações, algumas precisas e outras não – dificulta a identificação de fontes confiáveis e orientações eficazes.
Outro aspecto preocupante é o que chamo de “curadoria rasa”: o ato de dar likes e compartilhar conteúdos sem a devida leitura crítica. Essa prática contribui para a perpetuação de “verdades transitórias” — ideias que se tornam aceitas não pela sua veracidade, mas por sua repetição e apelo emocional. Em termos de promoção da saúde, isso pode significar o fortalecimento de mitos sobre alimentação, saúde mental ou atividade física, frequentemente desmentidos pela literatura científica (Petersen et al., 2022 – DOI:10.1186/s12916-022-02273-z). Contribui para que a população em geral perca a confiança nas indicações de profissionais de saúde realmente sérios, que muitas vezes não encontram atalhos para problemas complexos (comum ser inexistente).
Essa banalização do conhecimento científico traz implicações sérias na saúde populacional. Estratégias de promoção da saúde, especialmente no ambiente corporativo, exigem ações baseadas em evidências, construção de indicadores consistentes e avaliação longitudinal de resultados. Não há espaço para achismos ou modismos. A superficialidade, nesse contexto, não apenas deseduca — ela compromete decisões de gestores, interfere na aderência dos trabalhadores às ações de saúde e, em última instância, reduz o impacto positivo das intervenções.
A ciência é, por definição, revisável, mas não deve ser relativizada. O uso indevido do termo “científico” como argumento de autoridade, sem que haja método, controle e revisão por pares, é outro sintoma da cultura da superficialidade. É essencial que os leitores desenvolvam discernimento para diferenciar opinião embasada de opinião inflada por carisma digital.
Impactos na Saúde Corporativa
No ambiente corporativo, a propagação de informações superficiais pode comprometer programas de promoção da saúde e qualidade de vida. Funcionários expostos a conteúdos não embasados podem adotar práticas inadequadas, afetando sua saúde e produtividade. É essencial que as organizações implementem estratégias de comunicação baseadas em evidências, promovendo a alfabetização em saúde e o pensamento crítico entre seus colaboradores (World Health Organization – 2022 – Infodemics and misinformation negatively affect people’s health behaviours: new WHO review finds. https://www.who.int/europe/news/item/01-09-2022-infodemics-and-misinformation-negatively-affect-people-s-health-behaviours–new-who-review-finds).
Por exemplo, a adoção de dietas da moda sem respaldo científico pode levar a deficiências nutricionais e problemas de saúde. Da mesma forma, a prática de exercícios físicos sem orientação adequada pode resultar em lesões e outros prejuízos à saúde. ( Peng, W., Lim, S., & Meng, J. (2022). Persuasive strategies in online health misinformation: a systematic review. Information, Communication & Society, 25(12), 1710–1728. https://doi.org/10.1080/1369118X.2022.2085615). É parte da responsabilidade dos gestores de saúde corporativa fornecer informações precisas e acessíveis, incentivando hábitos saudáveis e sustentáveis.
A Importância da Curadoria de Conteúdo
A tendência de valorizar conteúdos populares em detrimento de informações precisas pode distorcer a percepção pública sobre temas de saúde. A utilização indevida do termo “científico” em conteúdos sem respaldo metodológico contribui para a confusão e a desinformação. Estudos apontam que a apresentação de informações com aparência científica, mesmo que incorretas, aumenta sua credibilidade percebida entre o público.
Nesse contexto, é fundamental que profissionais de saúde e gestores corporativos adotem uma postura proativa na curadoria e disseminação de informações. A promoção de conteúdos baseados em evidências, aliados a estratégias de comunicação eficazes, pode mitigar os efeitos da desinformação e promover comportamentos saudáveis.
Conclusão
A era digital exige uma abordagem crítica e responsável na produção e consumo de informações. A disseminação de conteúdos rasos e sedutores nas redes sociais tem criado um cenário propício para que soluções “milagrosas” e “irrecusáveis” ganhem espaço — mesmo quando desprovidas de qualquer embasamento técnico ou comprovação científica. O mercado está repleto de intervenções em saúde que prometem ganhos rápidos em produtividade, bem-estar ou redução de custos, mas que ignoram os princípios fundamentais da promoção da saúde baseada em evidência.
Quando tais promessas falham — e muitas vezes falham — o resultado não é apenas financeiro: gera-se um trauma institucional. Gestores, líderes e colaboradores tornam-se mais céticos, resistentes a novas iniciativas, mesmo quando estas são bem fundamentadas. Isso compromete a sustentabilidade das estratégias de saúde nas empresas e enfraquece a confiança na ciência.
Nesse cenário, o papel do gestor de saúde corporativa precisa ir além da entrega técnica: ele deve atuar como curador de evidências, defensor da integridade científica e promotor de escolhas sustentáveis. Isso exige disposição para nadar contra a maré da superficialidade, buscando construir políticas de saúde que resistam ao tempo, às modas e aos likes.
Como profissionais comprometidos com o impacto real — e não com o engajamento ilusório — devemos escolher a profundidade, mesmo quando ela exige mais esforço. Afinal, na saúde populacional, as mudanças verdadeiras são lentas, mas duradouras.
* Guilherme Murta é especialista em Medicina do Trabalho pela AMB/CFM. Mestre em Ensino nas Ciências da Saúde. Membro do Grupo de Diretrizes da ANAMT, Ex-Presidente da APAMT. Autor de capítulos de livros e artigos de saúde e segurança do trabalho. Professor convidado no MBA Executivo na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e na Especialização de Medicina do Trabalho UFPR.
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