
Agendar uma consulta pelo WhatsApp, acessar resultados de exames por aplicativos ou confirmar um atendimento por meio de links são atividades cada vez mais comuns nos serviços de saúde. Embora essas ferramentas tragam praticidade, também podem representar obstáculos para parte da população idosa, especialmente quando não existem alternativas de atendimento. Com a digitalização dos serviços, surge um desafio: como modernizar a assistência sem dificultar o acesso de quem mais precisa dela?
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Para a professora Rafaela de Sousa Maniçoba, Médica geriatra da Inspirali, ecossistema que atua na gestão de 15 escolas médicas em diversas regiões do Brasil, o acolhimento começa antes mesmo de o paciente entrar no consultório e envolve desde a facilidade para agendar uma consulta até a maneira como as orientações médicas são transmitidas.
A especialista explica que as dificuldades não estão necessariamente relacionadas à idade, mas a fatores como familiaridade com a tecnologia, condições de saúde, acessibilidade das plataformas e disponibilidade de suporte. Uma revisão científica publicada em 2024 na revista BMC Public Health, que analisou barreiras à adoção de tecnologias de saúde por idosos com doenças crônicas, identificou fatores socioeconômicos, individuais, tecnológicos e de apoio social que influenciam esse processo.
Além dos desafios digitais, a comunicação durante a consulta também exige atenção. Alterações na audição, visão ou cognição podem interferir na compreensão das orientações, mas não devem ser presumidas apenas pela idade. O atendimento precisa considerar as necessidades individuais, respeitando a autonomia e as preferências de cada paciente.
A especialista esclarece os principais cuidados para tornar a assistência à população idosa mais acessível e acolhedora. Confira:
- A tecnologia pode dificultar o acesso dos idosos aos serviços de saúde?
Sim. Agendamentos exclusivamente por aplicativos, criação de senhas, códigos de verificação, confirmações por links e acesso digital a exames podem representar barreiras para parte da população idosa.
A professora relata situações vivenciadas em consultório, como a de um paciente que encontrou dificuldades para agendar uma consulta porque o serviço disponibilizava contato apenas pelo WhatsApp. Em outro caso, uma pessoa idosa não conseguiu acessar os resultados de seus exames por um aplicativo e precisou de ajuda durante a consulta.
Esses exemplos mostram a importância de oferecer alternativas de atendimento e suporte para que a tecnologia não se torne um obstáculo ao cuidado.
- Como os profissionais de saúde podem melhorar a comunicação com pacientes idosos?
A comunicação deve ser clara, respeitosa e adaptada às necessidades individuais. É importante evitar termos técnicos desnecessários, falar em um ritmo confortável e permitir que o paciente tenha tempo para compreender as informações e fazer perguntas.
Também é fundamental verificar se a pessoa consegue ouvir adequadamente e ler as orientações fornecidas. Isso não significa tratar todos os idosos como pessoas com dificuldades de compreensão, mas reconhecer que cada paciente possui necessidades específicas.
Outro cuidado essencial é evitar a infantilização. A pessoa idosa deve ser tratada como protagonista de sua própria saúde, com respeito à sua história, às suas opiniões e às suas decisões.
- Como identificar se o paciente compreendeu as orientações médicas?
Concordar com o médico durante a consulta nem sempre significa que todas as informações foram compreendidas. Dificuldades para explicar os horários dos medicamentos, repetição de perguntas ou dúvidas sobre como seguir o tratamento em casa podem indicar a necessidade de adaptar a comunicação.
Uma estratégia é pedir que o paciente explique, com suas próprias palavras, como pretende seguir as orientações recebidas. Dessa forma, o profissional consegue identificar possíveis dúvidas e esclarecê-las antes do término do atendimento.
É importante considerar que essas dificuldades podem estar relacionadas à audição, à visão, à ansiedade ou à complexidade das informações, e não necessariamente a alterações cognitivas.
- Quando a participação de familiares ou acompanhantes é importante?
A presença de familiares pode contribuir para o acompanhamento de pacientes com dificuldades de memória, limitações funcionais ou tratamentos complexos. Eles também podem ajudar na organização dos medicamentos, no agendamento de consultas e no acompanhamento das orientações médicas.
No entanto, a participação da família não deve substituir automaticamente a voz do paciente. Sempre que possível, o profissional deve se dirigir primeiro à pessoa idosa, ouvir suas opiniões e verificar se ela deseja a participação do acompanhante.
Mesmo diante de algum comprometimento cognitivo, é importante considerar a capacidade de decisão do paciente em cada situação e respeitar suas preferências.
- O que os serviços de saúde podem fazer para reduzir as barreiras digitais?
A modernização dos atendimentos deve considerar diferentes níveis de familiaridade com a tecnologia. Disponibilizar canais alternativos para agendamento, facilitar o acesso aos resultados de exames e oferecer suporte para utilização das plataformas são medidas que podem tornar a assistência mais acessível.
Também é importante que aplicativos e sistemas digitais tenham interfaces simples, informações claras e recursos de acessibilidade.
Uma revisão publicada em 2023 na revista Applied Sciences, sobre a experiência de pessoas com 65 anos ou mais no uso de tecnologias digitais em saúde, destacou a importância da usabilidade e da experiência dos usuários na adoção dessas ferramentas.
- O que caracteriza um atendimento verdadeiramente acolhedor à pessoa idosa?
O acolhimento envolve todas as etapas da assistência, desde o agendamento até o acompanhamento após a consulta. No consultório, significa ouvir com atenção, compreender as preocupações do paciente, considerar sua história de vida e respeitar suas escolhas.
Na Geriatria, o cuidado também exige olhar para aspectos que vão além dos diagnósticos, como mobilidade, cognição, capacidade funcional, contexto familiar e rede de apoio. Pequenas atitudes, como chamar o paciente pelo nome de sua preferência, verificar se está confortável, explicar os próximos passos e reservar espaço para perguntas, podem contribuir para uma experiência mais segura e respeitosa.
Garantir um atendimento acolhedor também significa reconhecer que o avanço tecnológico precisa caminhar junto com a acessibilidade. Quando uma consulta depende exclusivamente de um aplicativo ou quando o paciente não consegue acessar informações importantes sobre sua saúde, a dificuldade deixa de ser apenas tecnológica e passa a interferir na continuidade do cuidado.
*Informações Assessoria de Imprensa







