
Uma criança grita, joga objetos no chão e tenta fugir da sala. Em seguida, pode bater, morder ou se machucar. Quando uma situação como essa acontece, a tendência dos adultos é tentar fazer o comportamento parar imediatamente. Para especialistas, entretanto, a resposta mais importante pode estar justamente no que aconteceu antes da crise.
O crescimento da presença de estudantes neurodivergentes nas escolas brasileiras torna esse preparo ainda mais necessário. Em 2025, o país chegou a 1,29 milhão de matrículas de alunos registrados somente na categoria Transtorno do Espectro Autista, segundo o Censo Escolar.
Para Franciane Heiden Rios, psicóloga, pedagoga e responsável técnica da Curiosaidade, o dado representa principalmente a necessidade de ampliar a capacitação de quem convive diariamente com crianças e adolescentes neurodivergentes.
“Uma crise não deve ser analisada apenas pelo comportamento que aparece no momento de maior intensidade. Precisamos entender o contexto, os sinais anteriores e o que aquela pessoa estava tentando comunicar ou evitar”, explica.
Entre os fatores que podem contribuir para uma escalada estão mudanças inesperadas, excesso de estímulos, dificuldades de comunicação, demandas acima das habilidades naquele momento, ansiedade, privação de sono e até dores ou outros problemas de saúde.
Por isso, identificar alterações sutis pode fazer diferença. Uma criança que começa a se afastar, aumenta os movimentos repetitivos, muda o tom de voz, chora, recusa atividades ou tenta deixar o ambiente pode já estar demonstrando que está chegando ao limite.
“Cada pessoa apresenta sinais diferentes. O trabalho preventivo começa quando os adultos aprendem a reconhecer esses sinais e sabem o que fazer diante deles”, afirma Franciane.
Durante uma crise, a orientação é priorizar a segurança e reduzir estímulos desnecessários. Muitas pessoas falando ao mesmo tempo, perguntas sucessivas, gritos ou insistência em uma demanda podem aumentar a sobrecarga.
Mas a prevenção não termina quando a crise acaba. O episódio deve ser analisado posteriormente para identificar possíveis padrões. O que estava acontecendo? Qual era a atividade? Houve alguma mudança naquele dia? Quais sinais apareceram primeiro? Como os adultos reagiram?
Esse acompanhamento permite desenvolver estratégias individualizadas e ensinar alternativas para que a criança consiga comunicar necessidades sem recorrer a comportamentos de risco. Pedir ajuda, solicitar uma pausa, dizer que algo está difícil ou pedir espaço são habilidades que também podem ser ensinadas.
Franciane ressalta que comportamentos como agressão, autoagressão ou destruição de objetos podem ocorrer por diferentes razões e não devem ser automaticamente atribuídos a um diagnóstico. “O diagnóstico não explica sozinho um comportamento. Quando atribuímos tudo ao autismo, deixamos de investigar as circunstâncias que podem estar provocando aquela reação.”
Outro cuidado é observar alterações repentinas. Dor, problemas gastrointestinais, infecções, mudanças no sono ou efeitos de medicamentos podem estar por trás de mudanças comportamentais e precisam ser considerados.
Para a especialista, escola, família e profissionais devem compartilhar informações e trabalhar com estratégias semelhantes.
“O objetivo não é preparar adultos para conter crises cada vez mais intensas. É preparar esses adultos para perceber o início da escalada e intervir antes que ela chegue ao ponto de maior risco já que o comportamento precisa ser analisado dentro de um contexto”, conclui.
*Informações Assessoria de Imprensa





