
Você certamente já ouviu falar em Ozempic®, Wegovy®, Saxenda® ou Mounjaro®. Conhecidos como canetas emagrecedoras, os medicamentos agonistas do GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, nos últimos anos passaram a ocupar espaço nas consultas médicas, nas redes sociais e nas conversas do dia a dia. Inicialmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2, esses medicamentos demonstraram efeitos expressivos na redução do peso corporal, tornando-se uma importante ferramenta no tratamento da obesidade.
Mas existe um aspecto menos comentado e talvez ainda mais interessante do que a própria perda de peso: a capacidade desses medicamentos de modificar a relação das pessoas com a comida.
Como agem os agonistas de GLP-1 e quais efeitos positivos sobre o comportamento alimentar?
Estes medicamentos agem em áreas cerebrais relacionadas ao apetite, à recompensa e ao controle dos impulsos. Dentre os benefícios estão: o efeito de saciedade precoce, auxiliando a pessoa a consumir quantidades menores de alimentos nas refeições, e também, a redução da intensidade dos sinais de fome e do chamado “food noise”, que é o ruído alimentar constante que leva algumas pessoas a pensar repetidamente em comida ao longo do dia.
Para pessoas com obesidade — uma doença crônica e multifatorial com forte componente neuroendócrino —, e para aqueles com diabetes tipo 2, esses efeitos representam uma mudança real na qualidade de vida, pois muitos descrevem sentir-se ‘em paz’ com a comida, sem aquela sensação constante de batalha contra a fome.
Benefícios documentados sobre o comportamento alimentar
▸ Redução da fome física e do apetite geral
▸ Diminuição do desejo por alimentos ultraprocessados, ricos em gordura e açúcar
▸ Redução dos episódios de compulsão alimentar em pessoas com Transtorno de Compulsão Alimentar
▸ Prolongamento da saciedade após as refeições
▸ Favorecimento de escolhas alimentares mais conscientes e planejadas
Porém, o mesmo mecanismo que representa um benefício terapêutico para quem tem obesidade ou diabetes pode se transformar em um risco sério para quem usa esses medicamentos sem indicação clínica adequada — especialmente pessoas que buscam os fármacos exclusivamente para perda de peso estética e ainda sem acompanhamento especializado.
Quando a supressão do apetite vira um transtorno: Agonorexia
Ao invés de promover uma relação mais equilibrada com a comida, o medicamento passa a ser utilizado como uma forma de evitar comer.
A fome não é uma inimiga. Ela é um sinal biológico essencial para a sobrevivência. Quando a supressão do apetite se torna excessiva, algumas pessoas podem passar horas sem se alimentar, omitir refeições e ingerir quantidades insuficientes de energia e nutrientes.
Especialistas em transtornos alimentares passaram a observar um padrão preocupante: pessoas que, sob efeito dos análogos de GLP-1, começaram a omitir refeições — não por disciplina alimentar, mas porque simplesmente não sentiam nenhuma vontade de comer.
Esse fenômeno ganhou um nome: agonorexia — uma combinação de ‘agonista’ (a classe dos medicamentos) com ‘anorexia’. Não se trata de anorexia nervosa clássica, mas de um quadro que a ela se assemelha em muitos aspectos: restrição alimentar severa, perda de peso acelerada e desestruturação dos padrões alimentares.
Sinais de alerta da agonorexia
▸ Passar o dia inteiro sem fome e sem se preocupar em comer
▸ Pular refeições como almoço e jantar de forma rotineira
▸ Sentir repulsa ou aversão a alimentos que antes eram agradáveis
▸ Perda de peso muito rápida (acima de 1–1,5 kg/semana)
▸ Fraqueza, tontura, queda de cabelo, unhas frágeis
▸ Preocupação crescente com a balança e com a imagem corporal
▸ Sensação de ‘controle’ satisfatório ao comer cada vez menos
▸ Recusa em ajustar a dose mesmo com sintomas de desnutrição
O problema é que emagrecer não significa necessariamente melhorar a saúde. Quando a supressão de apetite é intensa e contínua, a pessoa pode perder a capacidade de reconhecer sinais de fome genuína e a perda de peso rápida pode acarretar perda de massa muscular, deficiências nutricionais, fadiga e piora da relação com a alimentação.
A perda de peso que não se sustenta
Um ponto crucial e frequentemente ignorado: a interrupção dos análogos de
GLP-1 leva ao retorno do apetite — e, sem uma reeducação alimentar e mudança de estilo de vida consolidadas durante o tratamento, o peso perdido tende a retornar.
Estudos científicos robustos demonstram que após a interrupção do medicamento, boa parte das pessoas recupera o peso perdido em 12 a 24 meses.
Para quem usou o medicamento como ‘atalho’ para perda de peso sem estrutura de suporte, esse retorno pode ser ainda mais desestruturante — tanto fisicamente quanto psicologicamente.
O medicamento é uma ferramenta, não uma solução isolada
Os melhores resultados com análogos de GLP-1 — na saúde, no peso e no comportamento alimentar — são obtidos quando o medicamento é parte de um plano de cuidado integral, que inclui:
▸ Acompanhamento médico especializado e ético regularmente;
▸ Acompanhamento nutricional para compreender e regular o comportamento alimentar, garantindo ingestão adequada de nutrientes e estruturação de um novo padrão alimentar;
▸ Apoio psicológico, especialmente para quem tem histórico de distúrbios alimentares;
▸ Atividade física orientada para preservação de massa muscular;
▸ Objetivos centrados em saúde e bem-estar, e não apenas em estética
O medicamento a favor da saúde — com responsabilidade
Os análogos de GLP-1 representam um dos maiores avanços farmacológicos das últimas décadas no manejo da obesidade e do diabetes. Seu efeito sobre o comportamento alimentar vai muito além da simples ‘falta de fome’: eles recalibram circuitos cerebrais de recompensa, reduzem compulsões e favorecem uma relação mais consciente com a comida.
Vários estudos demonstram que a redução do impulso alimentar facilita a adesão a hábitos saudáveis, melhora o controle glicêmico e favorece a perda de peso sustentada quando associada a acompanhamento médico e nutricional. Para quem tem indicação clínica e faz uso adequado, os benefícios são reais e sustentados pela ciência.
No entanto, a mesma potência que os torna eficazes os torna também perigosos quando mal utilizados. A agonorexia é um alerta que não pode ser ignorado — especialmente em uma cultura que glorifica a magreza e busca soluções rápidas para questões que exigem cuidado prolongado e multidisciplinar.
Referências
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Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, Wharton S, Connery L, Alves B, et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. N Engl J Med. 2022;387(3):205-216. doi:10.1056/NEJMoa2206038.
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Pierret C, et al. Psychiatric Safety of GLP-1 Receptor Agonists: A Meta-analysis of 80 Randomized Controlled Trials. JAMA Psychiatry. 2025.
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