Nem toda IST aparece na região genital: médico alerta para sinais que podem passar despercebidos

IST
(Foto: Stockking/Magnific)

Quando o assunto é infecção sexualmente transmissível (IST), é comum imaginar que os primeiros sinais estarão necessariamente na região genital. Mas isso nem sempre acontece. Lesões, feridas, manchas e alterações na pele podem surgir em diferentes partes do corpo, dependendo da prática sexual e da área que teve contato durante a relação. Boca, lábios, língua, garganta, região ao redor do ânus, nádegas, virilha, mãos e pés estão entre os locais que podem apresentar manifestações.

Leia também – 5 curiosidades que você precisa saber sobre infecções sexualmente transmissíveis

Mosiah Machado, médico da família e comunidade e docente da disciplina de Saúde Digital do Centro Universitário Cesuca, da Grande Porto Alegre, explica que alguns sinais merecem atenção especial. Feridas ou úlceras que aparecem sem explicação, principalmente quando não provocam dor, pequenas bolhas agrupadas e dolorosas, novas verrugas, manchas espalhadas pelo corpo, secreções genitais ou anais, dor ou secreção retal, além de feridas persistentes na boca, podem estar associados a ISTs.

Um dos exemplos é a sífilis, que pode começar com uma ferida geralmente única e indolor e, posteriormente, provocar manchas pelo corpo, inclusive nas palmas das mãos e plantas dos pés. O herpes costuma provocar pequenas bolhas que se rompem e formam feridas dolorosas, enquanto o HPV pode causar verrugas genitais ou perianais. Já gonorreia e clamídia também podem atingir garganta e reto e, em muitos casos, não apresentar sintomas.

O especialista ressalta, porém, que a aparência de uma lesão isoladamente não é suficiente para confirmar ou descartar uma IST. Uma espinha ou foliculite, por exemplo, costuma estar relacionada a um folículo piloso, enquanto um pelo encravado frequentemente aparece após a depilação. Afta geralmente é dolorosa, ocorre dentro da boca e tende a desaparecer espontaneamente em uma ou duas semanas. Já uma lesão relacionada a uma IST pode persistir, aumentar, formar bolhas ou úlceras e aparecer acompanhada de outros sinais.
Mesmo sem sintomas, testagem pode ser necessária

Outro ponto de atenção é que muitas ISTs são assintomáticas. Por isso, não é preciso esperar o aparecimento de feridas, corrimentos ou outros sinais para procurar atendimento. A testagem é especialmente importante depois de uma relação sexual sem preservativo ou outra exposição de risco, quando um parceiro recebe diagnóstico de uma IST e em situações que demandem rastreamento periódico.

No caso de uma exposição recente ao HIV, a recomendação é procurar atendimento rapidamente, já que a PEP deve ser iniciada o quanto antes e no máximo em 72 horas. “Não tenho nada visível” não significa necessariamente que não exista uma infecção, reforça o especialista.
Testosterona não substitui os cuidados com a saúde sexual

A saúde sexual também envolve cuidados específicos para homens trans que fazem terapia hormonal. Segundo Mosiah, a testosterona pode provocar aumento do clitóris e alterações na sensibilidade. A menstruação geralmente diminui ou cessa, mas também podem ocorrer redução da lubrificação vaginal, ressecamento, afinamento e maior fragilidade da mucosa.

A terapia hormonal pode aumentar a libido em algumas pessoas, especialmente no início do tratamento, mas não há uma resposta única. A redução da lubrificação pode provocar ardência, fissuras, pequenos sangramentos ou dor durante relações com penetração vaginal ou frontal. Lubrificantes podem ajudar, mas sintomas persistentes precisam ser avaliados.

Um dos principais esclarecimentos é que testosterona não funciona como anticoncepcional. Mesmo sem menstruar, uma pessoa que mantém útero e ovários pode eventualmente ovular e engravidar. Além disso, a testosterona não protege contra HIV, sífilis, gonorreia, clamídia, HPV ou outras ISTs. A prevenção deve considerar as práticas sexuais e os órgãos envolvidos, podendo incluir preservativos, lubrificação, vacinação contra HPV e hepatite B e, quando indicada, PrEP.

Os cuidados ginecológicos também continuam necessários de acordo com os órgãos presentes. Pessoas que possuem colo do útero, por exemplo, devem manter o rastreamento do câncer cervical conforme as recomendações aplicáveis. Sangramentos persistentes ou que retornam após um período sem menstruação também merecem investigação.

Para o médico, um dos erros mais comuns é acreditar que o uso de testosterona significa que não há mais necessidade de acompanhamento ginecológico. O cuidado deve considerar os órgãos presentes, as cirurgias realizadas e as práticas sexuais, permitindo uma orientação individualizada sobre contracepção, prevenção de ISTs, rastreamento e conforto sexual.
Orgasmo seco pode ter relação com ejaculação retrógrada

Outro tema que ainda gera dúvidas é a chamada ejaculação retrógrada. A condição acontece quando, durante o orgasmo, o sêmen segue para a bexiga em vez de sair pela uretra. Isso ocorre quando o mecanismo que normalmente fecha o colo da bexiga durante a ejaculação não funciona adequadamente. Depois, o sêmen é eliminado junto com a urina e, em geral, não causa danos à bexiga.

Entre as principais causas estão cirurgias da próstata ou do colo da bexiga, alterações neurológicas, como neuropatia relacionada à diabetes ou lesões da medula, e o uso de determinados medicamentos, incluindo alguns alfabloqueadores utilizados para sintomas urinários relacionados à próstata. Alguns antidepressivos também podem interferir no mecanismo ejaculatório.

O sinal mais característico é o orgasmo com pouco ou nenhum sêmen, conhecido como “orgasmo seco”. Algumas pessoas também podem perceber que a primeira urina depois do orgasmo fica mais turva. No entanto, a redução do volume de sêmen não significa necessariamente ejaculação retrógrada, e a confirmação pode ser feita, quando necessário, pela pesquisa de espermatozoides na urina após o orgasmo.

A condição também ajuda a esclarecer uma diferença importante: ejaculação, orgasmo e ereção não são a mesma coisa. A pessoa pode continuar tendo ereção e sensação de orgasmo mesmo sem exteriorizar o sêmen. O principal impacto da ejaculação retrógrada costuma estar relacionado à fertilidade, já que pouco ou nenhum sêmen chega ao exterior, embora a produção de espermatozoides continue ocorrendo. Por isso, a condição não deve ser confundida com esterilidade.

Na maioria dos casos, o tratamento não é necessário quando a pessoa não está incomodada e não deseja ter filhos. A avaliação médica é indicada quando a alteração surge sem explicação, persiste, aparece após uma cirurgia ou medicamento, preocupa em relação à fertilidade ou provoca impacto significativo na vida sexual. Quando houver suspeita de que um medicamento seja responsável, ele não deve ser interrompido por conta própria.

“A informação correta é uma das principais ferramentas para cuidar da saúde sexual. Muitas situações podem não apresentar sinais evidentes, enquanto outras manifestações podem ser confundidas com problemas comuns. Por isso, diante de uma exposição de risco, de uma alteração persistente ou de qualquer dúvida, o mais seguro é procurar avaliação profissional em vez de tentar fazer um diagnóstico pela aparência”, orienta Mosiah Machado.

*Informações Assessoria de Imprensa