
Entre 2020 e 2024, o Brasil registrou 11.239 mortes por câncer de orofaringe, das quais 9.408 ocorreram em homens, o equivalente a 83,7% do total. O levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), elaborado com base em dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, é divulgado na semana da morte do ator Edward Boggiss, aos 49 anos e traz um alerta sobre a doença. Boggiss havia revelado, em 2024, o diagnóstico de câncer de orofaringe.
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Os dados mostram que o câncer de orofaringe também afeta uma parcela expressiva de adultos antes da terceira idade. Entre todos os óbitos registrados no período, 1.210 ocorreram em pessoas com menos de 50 anos, o equivalente a 10,8% do total. Considerando a população com menos de 60 anos, foram 4.231 mortes, correspondendo a 37,6% dos registros. Embora o maior número absoluto de óbitos permaneça concentrado entre 60 e 69 anos, com 3.863 mortes, especialistas observam que o perfil epidemiológico desses tumores vem mudando nas últimas décadas.
“Os tumores de orofaringe, amígdala e base da língua associados ao HPV são os que mais crescem, atingindo homens mais jovens, entre 40 e 60 anos, muitos deles sem qualquer histórico de tabagismo”, afirma Carlos Eduardo Santa Ritta Barreira, coordenador das Comissões de Cirurgia de Cabeça e Pescoço da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) e do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.
O levantamento da SBCO mostra que a mortalidade masculina supera a feminina em praticamente todas as faixas etárias. No conjunto do período, morreram 5,1 homens para cada mulher. A diferença é ainda mais expressiva entre adultos de meia-idade. Na faixa de 40 a 49 anos, foram 930 mortes entre homens e 122 entre mulheres, uma razão de 7,6 para um. Entre 50 e 59 anos, a relação foi de 7,3 homens para cada mulher (2.655 contra 366 mortes). Já entre 60 e 69 anos, foram registrados 3.356 óbitos masculinos e 507 femininos, mantendo uma razão de 6,6 para um.
Até poucas décadas atrás, a maioria dos tumores de orofaringe estava relacionada principalmente ao tabagismo e ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Hoje, entretanto, especialistas observam um aumento consistente dos tumores associados ao HPV, sobretudo ao subtipo HPV-16. A orofaringe compreende estruturas como as amígdalas e a base da língua, regiões onde esse perfil de tumor tem apresentado crescimento em diversos países.
O levantamento da SBCO também evidencia a influência das desigualdades sociais na mortalidade pela doença. Entre os 11.239 óbitos, 61,2% ocorreram entre pessoas com até sete anos de estudo. A maior concentração foi registrada entre indivíduos com 4 a 7 anos de escolaridade, responsáveis por 2.986 mortes (26,6%), seguidos pelas pessoas com 1 a 3 anos de estudo (2.481 mortes; 22,1%) e sem escolaridade (1.409 mortes; 12,5%). Apenas 490 mortes (4,4%) ocorreram entre indivíduos com 12 anos ou mais de escolaridade. “Sem dúvida, os mais vulneráveis são os pacientes com menos acesso aos serviços de saúde, que chegam mais tarde ao diagnóstico e adoecem de forma mais grave”, afirma Santa Ritta.
Além do diagnóstico precoce, uma das principais estratégias para reduzir a incidência dos tumores relacionados ao HPV é a vacinação. Embora seja amplamente conhecida pela prevenção do câncer do colo do útero, a vacina também reduz o risco de outros tumores associados ao vírus, como os cânceres de orofaringe, ânus, pênis, vulva e vagina.
No Sistema Único de Saúde (SUS), a vacina contra o HPV é oferecida gratuitamente em dose única para meninas e meninos de 9 a 14 anos e também para paciente oncológico. O imunizante também está disponível para grupos com condições específicas definidas pelo Programa Nacional de Imunizações, como pessoas vivendo com HIV, transplantados de órgãos sólidos ou de medula óssea e pacientes oncológicos.
Especialistas destacam que os benefícios da vacinação sobre os cânceres de orofaringe serão observados principalmente nas próximas décadas, devido ao longo intervalo entre a infecção pelo HPV e o desenvolvimento da doença. Enquanto isso, reforçam a importância de reconhecer sintomas persistentes, como dor de garganta que não melhora, dificuldade para engolir, rouquidão, lesões na boca e caroços no pescoço, especialmente quando permanecem por mais de duas semanas.
*Informações Assessoria de Imprensa











