
No dia 8 de julho, Dia Mundial da Alergia, o assunto volta a ganhar destaque em um momento em que essas doenças parecem fazer parte da rotina de cada vez mais pessoas. Rinite, asma, dermatite atópica, alergias alimentares, reações a medicamentos e alergias a picadas de insetos estão entre as manifestações mais conhecidas e podem ir de sintomas leves, como coceira e espirros, até quadros graves que exigem atendimento imediato.
A alergia acontece quando o sistema imunológico reage de forma exagerada a uma substância que, em geral, não representaria perigo para o organismo. Essa substância é chamada de alérgeno e pode estar presente no ar, nos alimentos, em medicamentos, em produtos de uso cotidiano, em pelos de animais, no pólen, nos ácaros ou no veneno de insetos. Em pessoas alérgicas, o contato com esses elementos pode desencadear sintomas como espirros, coriza, coceira, vermelhidão na pele, falta de ar, inchaço, dor abdominal, vômitos ou, nos casos mais graves, anafilaxia.
Nas últimas décadas, estudos internacionais têm mostrado que as doenças alérgicas representam uma carga crescente para a saúde pública. Uma análise global publicada na revista Allergy, com dados de 204 países e territórios entre 1990 e 2019, avaliou a evolução de doenças alérgicas como asma e dermatite atópica e reforçou que essas condições seguem associadas a importante impacto em diferentes regiões do mundo. O crescimento não pode ser explicado por um único fator. A predisposição genética continua sendo importante, mas as mudanças ambientais, alimentares e comportamentais parecem ter papel decisivo nesse fenômeno.
A impressão de que “todo mundo ficou alérgico” tem alguma base na realidade, mas precisa ser interpretada com cautela. Há evidências de aumento da carga das doenças alérgicas, mas os diagnósticos também se tornaram mais frequentes devido ao maior acesso à informação, à procura por atendimento especializado e aos exames mais precisos. Além disso, o avanço dos testes laboratoriais, incluindo a alergologia molecular, permite identificar com maior precisão os componentes envolvidos em cada reação.
Embora muitas alergias comecem na infância, elas podem aparecer em qualquer idade. Há pessoas que passam anos consumindo um alimento ou convivendo com uma substância sem apresentar sintomas e, depois de adultas, desenvolvem uma reação alérgica. Isso acontece porque o sistema imunológico não é estático, ele muda ao longo da vida e pode ser influenciado por infecções, alterações hormonais, envelhecimento, exposição repetida a determinados alérgenos, mudanças no ambiente, alterações da microbiota intestinal e fatores ocupacionais.
Nas alergias alimentares, esse fenômeno também chama atenção. Pesquisa publicada no JAMA Network Open estimou que 10,8% dos adultos norte-americanos apresentavam alergia alimentar confirmada, enquanto 19% acreditavam ter algum tipo de alergia. Entre os idosos, uma revisão publicada em 2024 no World Allergy Organization Journal aponta que esse problema vem crescendo e ainda é pouco reconhecido.
A vida moderna também ajuda a explicar parte do aumento das alergias. A urbanização, a poluição atmosférica, o maior tempo em ambientes fechados, mudanças na alimentação, uso frequente de antibióticos, menor contato com ambientes naturais e alterações na microbiota são fatores estudados por pesquisadores. A chamada hipótese da higiene, hoje discutida de forma mais ampla à luz da microbiota, sugere que a menor exposição a uma diversidade de microrganismos no início da vida pode interferir no desenvolvimento adequado do sistema imunológico, tornando-o mais propenso a respostas alérgicas.
Apesar desse crescimento, os avanços científicos também ampliaram as possibilidades de diagnóstico e tratamento. A imunoterapia específica, conhecida como “vacina para alergia”, continua sendo uma das estratégias mais eficazes para algumas alergias respiratórias. Já os medicamentos biológicos revolucionaram o tratamento de casos moderados e graves, como asma, dermatite atópica e urticária crônica. Nas alergias alimentares, a imunoterapia oral também vem sendo estudada para aumentar a tolerância a determinados alimentos em pacientes selecionados.
O futuro do tratamento caminha para uma abordagem cada vez mais personalizada, considerando o perfil de sensibilização, os fatores ambientais e as características de cada paciente.
Ainda não existe uma forma de prevenir todas as alergias, mas sintomas persistentes ou repetitivos, como espirros frequentes, nariz entupido, falta de ar, tosse recorrente, coceira intensa, lesões na pele, inchaço ou reações após o consumo de determinados alimentos, devem ser investigados por um profissional de saúde. O diagnóstico correto evita tanto a banalização dos sintomas quanto restrições desnecessárias.
Em um mundo em transformação, as alergias refletem a interação complexa entre genética, ambiente, alimentação, microbiota, clima e estilo de vida. O aumento dos casos deve ser visto como um desafio de saúde pública que exige informação de qualidade, diagnóstico precoce, acompanhamento adequado e atenção aos avanços da ciência.

*Ana Paula Garcia Fernandes dos Santos – professora e nutricionista – Mestre em Alimentação e Nutrição da Escola Superior de Saúde – UNINTER.
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