A saúde ainda funciona como no século passado e isso se tornou insustentável

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(Foto: Freepik)
A transformação digital da saúde deixou de ser uma promessa distante para se tornar necessidade prática, urgente e irreversível. O paciente já não aceita enfrentar jornadas fragmentadas, burocráticas e lentas em um mundo onde praticamente todos os outros setores evoluíram para experiências mais simples, conectadas e inteligentes. O que está em jogo não é eficiência operacional, mas a própria capacidade do ecossistema de saúde de responder a uma população cada vez mais exigente, envelhecida e dependente de cuidados contínuos.
O avanço das healthtechs mostra que o setor finalmente começou a compreender essa mudança. Segundo levantamento da Liga Ventures, o Brasil conta com 536 startups ativas na área da saúde, atuando em segmentos como telemedicina, saúde digital, diagnósticos avançados e gestão de dados. Esse crescimento não acontece por acaso. Ele responde diretamente às dores históricas de pacientes, médicos, hospitais, operadoras e da própria indústria farmacêutica, que convivem há décadas com processos desconectados, excesso de papel, baixa interoperabilidade e dificuldades no compartilhamento de informações.
Durante muito tempo, a inovação em saúde foi associada apenas a equipamentos hospitalares sofisticados ou à descoberta de novos medicamentos. Hoje, inovação significa criar jornadas mais fluidas, reduzir atritos e permitir que a informação necessária chegue à pessoa certa no momento adequado. Isso muda completamente a lógica do cuidado.
A inteligência artificial talvez seja o exemplo mais evidente dessa transformação. Nos últimos anos, a tecnologia saiu do campo experimental para ocupar um papel estratégico em diagnósticos, triagens e apoio à tomada de decisão clínica. A capacidade de analisar grandes volumes de dados médicos em poucos segundos permite identificar padrões que dificilmente seriam percebidos em análises convencionais. Isso impacta diretamente áreas como oncologia, cardiologia e medicina preventiva.
No caso do câncer, por exemplo, algoritmos de aprendizado de máquina vêm sendo treinados para identificar alterações em exames de imagem ainda em estágios iniciais da doença, aumentando significativamente as chances de sucesso nos tratamentos. Ao mesmo tempo, o uso de dados clínicos e genéticos começa a abrir espaço para terapias mais personalizadas, capazes de reduzir efeitos colaterais e aumentar a efetividade dos procedimentos. A medicina caminha para um modelo mais preditivo, preventivo e individualizado.
Talvez a mudança mais visível para a população esteja na consolidação da telemedicina. A pandemia acelerou um movimento que provavelmente levaria muitos anos para amadurecer. O atendimento remoto deixou de ser uma solução emergencial para se tornar parte permanente da estrutura de saúde. E isso vai muito além das consultas por vídeo.
O avanço do monitoramento remoto, dos dispositivos conectados e das triagens automatizadas redefine a maneira como pacientes e profissionais se relacionam. Hoje, já é possível acompanhar em tempo real indicadores como pressão arterial, glicemia e frequência cardíaca, permitindo intervenções mais rápidas e reduzindo complicações. No caso do Brasil, com desigualdades geográficas profundas, a tecnologia cumpre um papel fundamental na democratização do acesso ao atendimento especializado.
Outro ponto que ganha força é a multicanalidade. O paciente atual não quer apenas ser atendido. Ele quer autonomia, previsibilidade e conveniência. Quer marcar consultas pelo celular, acessar exames digitalmente, receber lembretes automáticos e transitar entre diferentes canais sem repetir informações o tempo todo. Essa integração se tornou um diferencial competitivo para todo o ecossistema.
Quando dados, plataformas e canais se conectam, o impacto é sistêmico. O profissional de saúde ganha agilidade e contexto. Hospitais reduzem desperdícios. Operadoras conseguem otimizar custos. A indústria melhora sua capacidade de distribuição e relacionamento. E o paciente finalmente ocupa o centro da jornada de cuidado, como deveria ter acontecido há muito tempo.
Existe também uma mudança importante em curso nos bastidores da saúde, menos visível para a população, mas igualmente estratégica, que é a construção de ecossistemas integrados. O setor começa a entender que inovação não nasce de estruturas isoladas. Ela depende da conexão entre startups, empresas de tecnologia, hospitais, farmácias, indústria e distribuidores.
Com isso, plataformas digitais e hubs de inovação assumem um papel decisivo na integração da cadeia. O futuro da saúde será cada vez mais orientado por dados, interoperabilidade e inteligência compartilhada. Quem continuar operando de forma fragmentada terá dificuldade para acompanhar a velocidade dessa transformação.
O mais interessante é perceber que a discussão sobre healthtechs deixou de ser apenas tecnológica. Estamos falando sobre acesso, eficiência, sustentabilidade e experiência humana. A tecnologia, sozinha, não resolve os desafios da saúde. Mas sem ela, será praticamente impossível enfrentar o aumento da demanda, a pressão por redução de custos e a necessidade de ampliar o acesso com qualidade.
*Rodrigo Galesi é CEO da Interplayers, hub de negócios da saúde e bem-estar, reconhecida por suas iniciativas disruptivas e tecnologia de ponta

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