
A experiência digital já é parte do coração do cuidado em saúde no Brasil: o país tem um mercado de saúde digital estimado em cerca de 12,4 bilhões de dólares em 2025, impulsionado por telemedicina, apps e plataformas que acompanham o paciente em toda a jornada. Mas os dados mais recentes mostram que o que realmente faz diferença não é ter “mais tecnologia”, e sim desenhar soluções simples, personalizadas e que deem ao paciente sensação real de controle sobre o próprio cuidado.
Uma revisão de experiência digital do paciente publicada pelo Journal of Medical Internet Research vem consolidando evidências de que menus intuitivos, linguagem clara, menos cliques e fluxos lineares são fatores centrais para aceitação e uso contínuo de plataformas de saúde. Pesquisas qualitativas reunidas pelo periódico mostram que pacientes valorizam sobretudo três dimensões: acesso mais rápido, usabilidade sem fricção e sensação de que o serviço “fala com a sua realidade”.
Ao analisar intervenções digitais para condições crônicas, revisões recentes indicam que recursos como conteúdo personalizado, definição de metas com lembretes estruturados e feedbacks ajustados ao comportamento do usuário aumentam engajamento e adesão ao tratamento. Já sínteses sobre hospitais digitais sugerem que, quando bem desenhados, sistemas eletrônicos e portais do paciente melhoram a percepção de segurança e de organização do cuidado, mas podem gerar frustração se acrescentarem etapas ou burocracia em vez de simplificar.
Brasil: mercado aquecido, uso ainda desigual
Projeções apontam que o mercado brasileiro de saúde digital deve alcançar cerca de 12,4 bilhões de dólares em 2025, com expectativa de chegar a mais de 44 bilhões em 2034, impulsionado principalmente por telemedicina, apps de saúde e monitoramento remoto. Estudos de mercado e análises setoriais mostram que mais de 90% dos domicílios brasileiros já têm acesso à internet e que o país caminha para ter cerca de 185 milhões de usuários de internet móvel até meados da década, criando uma base massiva para soluções digitais em saúde.
Ao mesmo tempo, pesquisas sobre saúde digital na Atenção Primária indicam que a incorporação de teleconsultas e ferramentas remotas ainda é desigual: por exemplo, análises de 2025 estimam que pouco mais da metade das unidades básicas oferece algum tipo de suporte em telessaúde, revelando um avanço importante, porém distante da universalização. Iniciativas-piloto como o projeto UBS+Digital, descrito em artigo de 2025 do JMIR, demonstram que modelos de teleatendimento estruturado conseguem ampliar o acesso em regiões com escassez de médicos, reforçando o papel da experiência digital como porta de entrada para o SUS.
Simplicidade, personalização e autonomia
A síntese de evidências sobre “digital patient experience” propõe que a experiência digital é o conjunto de todas as interações mediadas por tecnologia que moldam a percepção do paciente ao longo da linha de cuidado, influenciada por fatores técnicos, comportamentais e organizacionais. Dentro desse conceito, autores destacam que interfaces simples, explicações passo a passo e redução de formulários extensos funcionam como determinantes práticos para que a tecnologia seja percebida como aliada, e não como mais um obstáculo.
Os mesmos estudos mostram que a personalização deixa de ser detalhe e passa a ser critério decisivo: notificações ajustadas ao horário de trabalho, recomendações de autocuidado alinhadas ao histórico clínico e comunicação que leva em conta faixa etária e letramento em saúde aumentam a sensação de reconhecimento e a confiança nas plataformas. Outro ponto recorrente é a demanda por autonomia: pacientes querem acompanhar o andamento de solicitações, saber quais são as próximas etapas e ter clareza sobre opções de tratamento, algo que, quando incorporado aos sistemas, melhora a percepção de transparência e de respeito ao protagonismo do usuário.
Jornada contínua e exemplos brasileiros
A literatura recente reforça que a experiência digital não termina na videochamada ou na consulta presencial: o valor percebido pelo paciente depende também da facilidade para agendar exames, receber laudos, tirar dúvidas e monitorar sua recuperação em casa. Healthtechs brasileiras vêm ocupando esse espaço com plataformas que prometem acompanhar a jornada completa, da triagem inicial ao pós-consulta, usando inteligência artificial para organizar agendas, enviar lembretes, fazer check-in digital e coletar feedbacks de satisfação.
Nesse cenário, soluções já presentes no Brasil se inserem em uma tendência de “tecnologia invisível”: sites e aplicativos que se apresentam como uma jornada única, do agendamento ao resultado, e se integram aos sistemas do hospital ou laboratório para que o paciente perceba um fluxo contínuo, enquanto o profissional acessa dados consolidados para tomada de decisão. O avanço de agentes autônomos de IA em startups nacionais, ilustra esse movimento ao operar como “força de trabalho digital” em canais já familiares ao brasileiro, como o WhatsApp, diminuindo atrito e mantendo a promessa de simplicidade e cuidado centrado na pessoa.

*Mendel Sanger é CTO do Grupo Vivhas. Com mais de 30 anos de experiência no mercado tech, onde acumula passagens por empresas como PwC, HQS Plus, o executivo é responsável pela vertical de Inovação e novas alianças do Grupo Vivhas, marca que reúne as empresas Vivere, Zion e DTI.
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