
Quase onipresentes nos lares brasileiros, a verdade é que os bichinhos de estimação já se tornaram, para muitos, parte da família. Desde compartilhar o mesmo quarto até frequentar creches específicas, a relação entre tutor e animal cresce a cada dia no Brasil, reforçando, também, a conscientização sobre o cuidado integral da saúde dos pets e dos humanos. Zoonoses como toxoplasmose, raiva e micose podem impactar a vida da família, mas são prevenidas com hábitos simples.
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Se antes era essencial ter apenas um médico de confiança – e, no caso das crianças, um pediatra -, agora outro profissional se faz mais presente na rotina: o médico veterinário. Seja para cuidar dos bichinhos ou para orientar os tutores quanto às zoonoses – doenças transmitidas de animal para humano -, ter uma equipe de confiança faz toda a diferença na longevidade e qualidade de vida de toda a família.
“Os nossos pets estão cada vez mais humanizados e, com isso, precisamos tomar alguns cuidados para a saúde deles e a nossa. A principal orientação é manter as vacinas anuais atualizadas, com vermífugo pelo menos a cada seis meses, principalmente para aqueles cães que passeiam em parques e praias. O uso de repelente em regiões litorâneas também é importante para prevenir doenças adquiridas por picadas de mosquitos”, explica a médica veterinária Ana Carolina Andrade, sócia proprietária da Clínica Veterinária Vet’s 4 Pets.
Segundo a profissional, o convívio com animais expõe os humanos a zoonoses como a leptospirose, raiva, sarna, micose, ancilostomíase – o famoso bicho geográfico – e, também, a toxoplasmose. “Por isso é necessário manter a vacinação e a vermifugação em dia, com controle de pulgas e carrapatos, tanto nos animais como no ambiente, além da higienização e alimentação adequada, evitando a ingestão de carnes cruas ou alimentos mal lavados.”
Grávida pode conviver com gatos?
E, por falar em toxoplasmose, Ana Carolina ressalta o grande mito que existe entre a gestação e o contato com felinos. “As gestantes precisam tomar os mesmos cuidados que qualquer outra pessoa, mantendo a vacinação dos animais em dia, higienização a mão corretamente após brincar com os pets e, principalmente, não deixar fezes de felinos paradas por mais de dois dias, pois é o tempo necessário para a exposição da toxoplasmose”, diz, ao detalhar que os gatos eliminam oocistos nas fezes somente quando é infectado pela primeira vez. “Já a contaminação do humano acontece quando há a ingestão acidental desses oocistos, sendo justamente pela falta de higiene correta.”
Esse foi o caso de José Carlos Santos*, publicitário que atualmente tem 61 anos. Quando sua mãe ficou grávida, a família contava com três gatos em casa e, à época, o pré-natal não era tão rigoroso como atualmente. “Sempre tivemos vários gatos e, inclusive, depois de eu nascer, convivi com os animais em casa até a adolescência. Porém, minha mãe não fez o pré-natal corretamente e, também, não tinha o cuidado em vacinar os animais”, relembra. As verduras consumidas na casa vinham de uma horta própria, plantada no quintal dos fundos – exatamente onde os gatos andavam livremente.
Desde cedo, José Carlos percebeu uma grande dificuldade para enxergar e, mais velho, o oftalmologista detectou uma lesão no nervo óptico que comprometeu em 30% a visão do olho direito. “A partir disso eu busquei outros profissionais e a dedução que todos chegaram era da possível infecção ainda na gravidez, com uma complicação que, se for pensar, ainda não foi a mais grave, pois eu poderia ter ficado cego. Mas, todos também reforçaram que, se minha mãe tivesse seguido o pré-natal corretamente e dado os devidos cuidados aos animais, talvez isso não tivesse acontecido.”
Como ocorre a transmissão da toxoplasmose para os humanos?
Como pontuou a médica veterinária Ana Carolina, a prevenção é simples: higiene correta e vacinação em dia. “Muitas pessoas ainda reforçam o mito de que é necessário doar os gatos ou cachorros quando há uma gravidez, o que não faz sentido, já que a contaminação pode acontecer, inclusive, de outras formas. E todas elas estão ligadas à falta de higiene e, principalmente, de informação”, reforça. A contaminação acontece, segundo ela:
- Ao manipular a caixa de areia dos gatos e, depois, tocar a boca sem lavar corretamente as mãos;
- Limpar fezes secas, principalmente há mais de dois dias, que podem liberar poeira contaminada;
- Ter contato com solo contaminado pelas fezes paradas há mais de dois dias;
- Ao não lavar corretamente verduras, frutas e folhosos;
- Ao consumir carnes cruas.
Bebês em casa, pets… fora?
Não é só apenas na gravidez que os mitos surgem: quando um bebê está chegando, muitos tutores ainda se preocupam com a convivência junto aos animais de estimação. Há, inclusive, pessoas que decidem doar cachorros e gatos, principalmente por medo de alguma contaminação. “A convivência não apenas é segura, como traz diversos benefícios, como o fortalecimento da imunidade, desenvolvimento emocional e promoção de estímulos positivos”, afirma Ana. No entanto, a médica veterinária lembra que existem animais reativos, então pais e responsáveis não devem, nunca, deixar bebês e crianças pequenas sozinhas com os pets, preservando o bem-estar de ambos.
Por fim, a profissional reforça a importância de buscar um médico veterinário de confiança, mantendo a regularidade de consultas de rotina e exames anuais, evitando a progressão de doenças silenciosas. “As vacinas, vermífugos e ectoparasiticidas precisam estar sempre em dia, para que os animais sigam uma vida saudável e com qualidade de vida. E, claro, os seres humanos precisam assumir a responsabilidade e manter o cuidado com a higienização do ambiente e alimentação adequada.”
*Nome fictício para preservar a identidade do entrevistado







