Comece pelo sentir: o papel das escolas na saúde emocional de crianças e adolescentes

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(Foto: Freepik)
A reflexão sobre a vida e sobre como cuidamos da saúde mental de crianças e adolescentes exige atenção contínua, pois o equilíbrio emocional das novas gerações depende de escolhas e práticas cotidianas.  É hora de olhar, ouvir e acolher. Precisamos ajudar as crianças e adolescentes a reconhecerem o que sentem, dando nome às próprias emoções e aprendendo a expressá-las. Esse é o papel central da educação socioemocional: preparar as novas gerações para lidar com frustrações, cultivar empatia e construir relações mais saudáveis.
Participei recentemente de uma roda de conversa com Emanuel Aragão, psicanalista e escritor, Vanessa Cavalieri, juíza da Vara da Infância e Juventude e Carol Fernandes, criadora de conteúdo focada em autoestima materna e infantil. Começamos o papo falando sobre o papel das relações, uma vez que vínculos de confiança, acolhimento e sensação de pertencimento surgem como a principal linha para melhorar as relações e gerar mais aproximação.
Crianças e adolescentes precisam se sentir aceitos mesmo diante de suas falhas. A angústia e a agressividade são sinais de alerta que pedem escuta e compreensão — não apenas correção. Para apoiar esse processo, é importante observar mudanças de comportamento, valorizar a singularidade de cada jovem e criar pequenos rituais de presença no cotidiano, como uma conversa, uma refeição em família ou um momento de brincadeira. Esses gestos fortalecem a autoestima e a resiliência
Outro ponto importante que abordamos foi a tecnologia. Durante a conversa, ficou evidente que o problema não é a tela em si, mas a solidão diante dela. Nenhum algoritmo substitui o afeto real.  As experiências concretas de convivência ensinam frustração, empatia, cooperação e pertencimento, competências essenciais para que crianças e adolescentes enfrentem desafios emocionais de forma saudável.
Fechamos a conversa abordando o enfrentamento da violência nas relações. Conflitos naturais fazem parte da vida e podem ser educativos, ensinando negociação e limites. O bullying, por outro lado, é violência, que prejudica tanto a vítima quanto quem agride, privando os dois lados do aprendizado sobre convivência e respeito. Aqui nesse caso, ser neutro não é uma opção. É muito importante agir, prevenir, intervir e fortalecer a cultura do cuidado e da empatia.
Os números dão a dimensão da urgência de cuidarmos da saúde mental das nossas crianças. A Organização Mundial da Saúde estima que um em cada sete jovens no mundo enfrenta algum transtorno mental. No Brasil, cerca de 40% dos adolescentes apresentam sinais de ansiedade ou depressão, e 22% dos jovens de 15 a 24 anos relatam desânimo ou falta de interesse em suas atividades, aponta relatório do UNICEF. Estes dados não são estatísticas frias:  são sinais claros de que precisamos agir.
A saúde mental não pode ser tratada como pauta secundária. É a base sobre a qual se constrói aprendizado, convivência e futuro. E talvez, o primeiro passo seja exatamente este: começar pelo sentir.
*Rafaela Perim é gerente socioemocional da Escola da Inteligência, uma empresa do grupo Arco Educação. Psicóloga com experiência em educação básica e desenvolvimento humano, atua na formação de professores e na implementação de práticas de educação socioemocional em escolas de todo o Brasil. É responsável pela condução de projetos voltados à promoção da saúde mental de crianças e adolescentes, como a campanha “Setembro Amarelo – E se a gente começasse pelo sentir?”.

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