Residência médica no Brasil: um gargalo que ameaça o futuro da saúde

residencia medica
(Foto: Freepik)
A residência médica é a espinha dorsal da formação em saúde. É nela que o médico consolida seu aprendizado, desenvolve novas habilidades e conhecimentos práticos intensivos e adquire a segurança necessária para atender vidas com competência e responsabilidade. Nenhum sistema de saúde pode se sustentar sem especialistas bem formados e sociedade alguma pode renunciar à qualidade que esse período de especialização proporciona. Valorizar a residência é, portanto, valorizar o futuro da medicina e a dignidade do paciente.
Mas os números mais recentes mostram que o Brasil falha nessa missão. A Demografia Médica 2025 aponta que 8% dos médicos do país cursavam residência médica em 2024. Além disso, o levantamento mostra que 19,2% das vagas de residência médica em programas de especialidades médicas não foram ocupadas no ano passado.
Outra questão é que quase metade dos programas de residência está concentrada na Região Sudeste. Isso reflete diretamente no acesso da população a cuidados especializados e reforça a urgência de políticas públicas que incentivem a distribuição equilibrada de vagas de residência pelo país.
Em dezembro de 2024, o Brasil contava com 353.287 médicos especialistas, profissionais que possuem pelo menos um título em especialidade médica. O número representa 59,1% do total de médicos registrados no mesmo período. Os outros 244.141 (40,9%) são médicos generalistas, que concluíram a graduação de medicina, mas sem título de especialista.
A má distribuição dos profissionais já começa na etapa de residência. Estados mais periféricos ou menos favorecidos têm menos vagas e infraestrutura. O resultado é que médicos têm de migrar para grandes centros ou desistir da especialização. As unidades federativas com as maiores concentrações de especialistas por cem mil habitantes são o Distrito Federal e São Paulo. Enquanto as menores estão no Maranhão e Pará.
Apesar de todas as unidades federativas terem apresentado aumento no número de residentes médicos entre 2018 e 2024, ainda não é o suficiente para gerar uma distribuição igualitária.
Estima-se que em 2035 haverá no país mais de um milhão de médicos. Estamos formando muitos médicos, mas não estamos garantindo a especialização, a equidade e as condições para os residentes exercerem plenamente suas funções.
Profissionais mal integrados ao sistema, sem acesso à residência, podem ficar mais vulneráveis a erros, desgastes emocionais e até processos judiciais. Não se trata apenas de falhas individuais, mas de um problema estrutural que expõe médicos e pacientes. A judicialização da saúde, que cresce a cada ano, também está ligada à falta de condições adequadas para que o médico exerça sua profissão com segurança.
As condições de trabalho daqueles que conseguem entrar nos programas não são menos preocupantes. Longas jornadas, bolsa-auxílio com valor baixo, pressão constante por desempenho e exposição diária ao sofrimento humano tornam a residência um período de intensa vulnerabilidade emocional.
Estudo publicado na revista Espaço para a Saúde mostra que os residentes participantes de pesquisa em Santa Catarina, Rio Grande do Norte, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraná e Maranhão apresentam sintomas de estresse e burnout. É urgente reconhecer que o bem-estar psicológico deve ser tratado como parte indissociável da formação, com suporte estruturado em programas de acolhimento, acompanhamento psicológico e condições dignas de descanso.
Se o Brasil quer fortalecer o SUS e melhorar o acesso à saúde, precisa começar por quem está na linha de frente. O residente não é apenas um aprendiz; é o profissional que carrega nas mãos o futuro da medicina brasileira. Ignorar sua valorização é comprometer a qualidade do atendimento e, em última instância, a vida de milhões de brasileiros.
*Raul Canal é advogado especialista em Direito Médico e Odontológico, doutorando em Odontologia Legal pelo Centro de Pesquisas Odontológicas São Leopoldo Mandic (com período sanduíche na University of Florida) e mestre em Ciência, Tecnologia e Gestão aplicadas à Regeneração Tecidual pela Unifesp. Presidente da Anadem, da AAAPV e da Confseg, atua há décadas na proteção profissional de profissionais de saúde. É membro de academias de letras e associações científicas nacionais e internacionais, com publicações sobre responsabilidade médica, bioética e longevidade.

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