O detalhe que a IA não consegue responder sobre sua carreira: veja qual é

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(Foto: Freepik)

A inteligência artificial (IA) avança sobre a orientação de carreira. Ferramentas que prometem otimizar currículos, treinar para entrevistas e até planejar uma transição de carreira completa estão a poucos cliques de distância, no entanto, trazem à tona um questionamento: a IA oferece um suporte genuíno ou apenas um alívio superficial para as complexas angústias de uma mudança profissional? 

Segundo a consultora de RH e psicóloga, Bia Tartuce, um dos pontos mais sensíveis no debate sobre a IA na orientação de carreira é a sua incapacidade de lidar com a profundidade das questões humanas. “Uma crise de carreira raramente é apenas sobre habilidades e mercado de trabalho, muitas vezes, está intrinsecamente ligada a traumas, valores pessoais, crises existenciais e a busca por um propósito maior”, comenta a mentora de líderes e de carreira.

O próprio Conselho Federal de Psicologia (CFP) ressalta que esses sistemas não possuem compreensão, consciência ou julgamento ético, apenas simulam aspectos do comportamento inteligente por meio de algoritmos estatísticos.

“Um chatbot pode identificar palavras-chave como ‘ansiedade’ ou ‘frustração’ e oferecer estratégias de enfrentamento genéricas. No entanto, ele é incapaz de compreender a origem dessa ansiedade, de conectar um evento do passado com uma dificuldade profissional atual ou de explorar um conflito de valores que impede o cliente de se sentir realizado”, afirma Bia Tartuce.

O risco de autodiagnóstico e as decisões precipitadas

Outro risco significativo do uso da IA na orientação de carreira é a possibilidade de o usuário interpretar mal os “diagnósticos” e as sugestões da ferramenta, o que pode agravar sua condição ou levar a decisões profissionais precipitadas e mal fundamentadas.

“Imagine um profissional que, após interagir com um chatbot, recebe a sugestão de que sua personalidade é mais adequada para uma carreira completamente diferente. Sem a mediação de um orientador humano, que poderia explorar as nuances dessa sugestão, o profissional pode tomar a decisão drástica de abandonar sua carreira atual, investindo tempo e recursos em uma nova formação, para só então descobrir que a mudança não atendeu às suas expectativas ou necessidades mais profundas. O autodiagnóstico, nesse caso, pode levar a um ciclo de frustração ainda maior”, esclarece a psicóloga.

A aliança terapêutica: o fator humano indispensável

Talvez o argumento mais forte a favor da orientação de carreira conduzida por humanos seja a aliança terapêutica (ou aliança de trabalho). Este conceito, amplamente estudado em psicoterapia, refere-se à qualidade do vínculo entre o profissional e o cliente e é considerado um dos principais motores da mudança e do sucesso em qualquer processo de desenvolvimento humano.

“Essa aliança é construída sobre pilares fundamentalmente humanos: empatia, confiança, respeito, escuta ativa e a capacidade de criar um espaço seguro e livre de julgamentos. São elementos que, por sua própria natureza, não podem ser replicados por um algoritmo”, comenta Bia Tartuce.

Um estudo publicado na Revista Brasileira de Orientação Profissional, intitulado “Efeitos da aliança de trabalho no aconselhamento de carreira”, concluiu que uma aliança de trabalho forte está diretamente associada a melhores resultados, incluindo a conclusão do processo, a satisfação do cliente e uma maior percepção de eficácia da intervenção. Os autores reforçam “a importância de considerar os aspectos relacionais do processo para a efetividade do aconselhamento de carreira”.

A substituição desse vínculo por interações automatizadas, segundo o CFP, representa uma fragilização da confidencialidade e um risco de comprometer princípios fundamentais da prática profissional, como a singularidade do sujeito. “Para quem busca uma orientação de carreira séria e transformadora, a tecnologia pode ser uma aliada, mas a bússola principal ainda é, e deve continuar sendo, a relação de confiança e profundidade construída com um orientador de carreira humano, capaz de guiar o cliente não apenas por dados, mas através das complexas da alma humana”, finaliza Bia Tartuce.

*Informações Assessoria de Imprensa