
“Parte significativa dos pacientes oncológicos precisarão, em algum momento, da atenção do endocrinologista para tratar comorbidades que podem surgir por decorrência do câncer ou do tratamento da doença”, explica Felipe Henning Gaia Duarte, endocrinologista membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP).
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O especialista ministrará palestra durante o 35º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia – CBEM 2022, que acontece em São Paulo de até dia 7 de setembro, no Transamerica Expo Center, com o tema “Efeitos endocrino-metabólicos dos novos tratamentos oncológicos”. Abaixo, Gaia explica como o câncer e os tratamentos dessa doença podem desencadear problemas nas glândulas endócrinas e no metabolismo.
Qual é o papel do endocrinologista na condução dos pacientes oncológicos para controle do tratamento?
Devemos subdividir a atuação do endocrinologista em duas áreas:
1- Quando o tumor é em uma glândula endocrinológica;
2- Quando o tumor é em outro tecido, mas que pode ou não ter repercussão em glândulas endocrinológicas.
Tratando-se de um tumor endocrinológico, ou seja, um tumor cuja origem é em alguma glândula hormonal, ex.:tireoide, hipófise, adrenal, o endocrinologista exerce papel fundamental na condução dos casos, desde o diagnóstico até o tratamento. Em paralelo, com o oncologista, que é solicitado quando é necessário fazer quimioterapia ou algum outro tratamento oncológico específico.
No caso de tumores em outras áreas do organismo, o endocrinologista fará parte do acompanhamento quando o paciente possuir comorbidades que são endocrinológicas, como o diabetes por exemplo, ou se ocorrem situações paraneoplásicas que necessitem do conhecimento do endocrinologista.
Existem efeitos colaterais do tratamento do câncer associados às funções endócrinas? Quais são?
Sim, os tratamentos quimioterápicos ou imunoterápicos podem desencadear alterações endocrinológicas. Muitas das quimioterapias envolvem o uso do dexametasona, em dose alta, que pode levar ao surgimento ou piora do diabetes.
Nos pacientes oncológicos, além do diabetes mediado pelo dexametasona, também é muito comum que eles apresentem a hiponatremia (queda do nível de sódio no sangue), devido à secreção inapropriada de hormônio antidiurético pelos tumores.
Muito comum também são as hipercalcemias (nível de cálcio alto) desencadeadas pelos tumores mais avançados ou agressivos. Nestes casos o endocrinologista acaba participando ativamente na condução dessa complicação.
Tratamentos à base de medicamentos estimuladores do sistema imunológico – imunoterapia – têm sido muito usados no combate ao câncer, porém eles podem afetar algumas glândulas como a hipófise e a tireoide, principalmente. Nesses casos, é ideal que o endocrinologista acompanhe junto com o oncologista durante o tratamento. Apesar de raro, diabetes causado por lesão das células produtoras de insulina também pode acontecer.
Falando em imunoterapia, os tratamentos de câncer realizados com Nivolumab, Ipilimumab e Pebrozolumab são exemplos de medicações que podem alterar o sistema endocrinológico?
Estamos usando bastante imunoterapia para o tratamento de diversos tipos de tumores, porém essas medicações podem frequentemente afetar a tireoide e a hipófise. Por isso, a importância do oncologista e endocrinologista trabalharem juntos no tratamento para câncer.
O ganho de peso do paciente tem sido uma dificuldade a mais na condução dos pacientes com câncer ou em tratamento do câncer?
No paciente oncológico, uma das características mais frequentes – na fase inicial da doença – é o ganho de peso. Só a ansiedade e o estresse que acontece diante do diagnóstico já acaba descompensando o controle alimentar, levando ao que chamamos de transtorno compulsivo alimentar. O corticoide utilizado como auxiliar na quimioterapia é outro fator, além da preocupação (justificada) em manter a nutrição do paciente, que frequentemente o leva a comer alimentos mais calóricos e por consequência ganhar peso. A grande questão é que está bem documentado nos casos de câncer de mama, por exemplo, que o ganho de peso pode prejudicar a evolução do tratamento.
Falando em câncer de mama, um dos cânceres mais comuns em mulheres. Existe algum cuidado especial que o endocrinologista deva ter nestes casos?
Nos casos de câncer de mama, alguns medicamentos utilizados no tratamento e na prevenção da recorrência podem levar à perda de massa óssea e osteoporose. Então, o endocrinologista precisa estar junto da equipe.
Da mesma forma, o tratamento de alguns casos mais agressivos de câncer de próstata, que necessitam de medicamentos que reduzam ou bloqueiem a ação dos hormônios masculinos podem favorecer o surgimento de obesidade, diabetes e perda de massa óssea também.
35º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia (CBEM)
Data: de 3 a 7 de setembro de 2022
Local: Transamerica Expo Center – São Paulo/SP
Realização: Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)
Site: https://cbem2022.com.br/
*Informações Assessoria de Imprensa
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